TEXTO:
Anda, apressando-se, como a fugir. Não percebe
os que passam porque nada realmente importa a não
ser o encontro com Odilon. E a verdade é que, antes
de transpor a porta da casa, ali no Bângala, deteve-se
[5] frente ao espelho, no quarto, mas não teve coragem
de olhar-se. Pareceu-lhe que, vendo-se naquele
espelho, faltaria a coragem para o encontro. E por
isso, apenas por isso, ganhara a rua com rapidez.
Gasto é o vestido que usa, fora de moda, o
[10] melhor de todos que restaram. Os cabelos agora
brancos, sempre sedosos, não melhoram o rosto
cansado. Olhos sem brilho, boca um pouco murcha,
as rugas. Este é o lado, o lado de fora, que
Odilon verá. Sabe que Odilon – e se não mudou
[15] inteiramente – examinar-lhe-á o rosto com atenção
a observar todos os detalhes. Não poderá ver, porém,
o lado de dentro, precisamente o lado da consciência
e do coração.
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É o começo da ladeira, agora. Espera que o
[20] caminhão suba, invadindo o largo e espantando os
pombos, para transpô-la. E, apesar de andar muito
devagar, sente crescer a inquietação quanto mais se
aproxima do pátio da igreja, o lugar do encontro.
Minutos, faltam apenas alguns minutos! Perto, muito
[25] perto mesmo, já na escadaria que leva ao pátio, vê
Odilon. Está de pé, o paletó chegando aos joelhos, a
calça frouxa em dobras sobre as pernas, o laço da
gravata quase no peito, velho e sujo o chapéu de
feltro. E, talvez por causa do buquê de rosas
[30] vermelhas que tem na mão, parece um palhaço de
circo. É ele, Odilon, não há dúvida. Os cabelos
grisalhos, bastante envelhecido, mas o mesmo
homem de sempre.
Enorme o esforço de Eliane para que não chore
[35] e as mãos não tremam, agora, quando recebe as
rosas. Ele, com a face séria e tranquila, mantém-se
em silêncio por um minuto. Segurar o braço da
mulher é tudo o que faz. E, como se nada tivesse
acontecido naqueles trinta anos, desde que se
[40] separaram, ele apenas diz:
– Vamos, Eliane, vamos para casa.
Ergue o rosto e, vendo o sol que tudo inunda,
não sabe por que se lembra das manhãs de chuva
que sempre escurecem o Largo da Palma. Agora,
[45] como a vingar-se daquelas manhãs, o sol ajuda o céu
tão azul. E Eliane, ainda com o coração a bater muito
forte, não tem dúvida de que o seu velho largo, como
num dia de festa, está vestido de branco.
ADONIAS FILHO. O largo de branco. O Largo da Palma. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014. p. 31-32 e 46-47.
Marque com V ou com F, conforme sejam, respectivamente, verdadeiras ou falsas as afirmativas sobre o conto “O largo de branco”, de Adonias Filho, de onde foram retirados os trechos acima transcritos.
( ) Os trechos transcritos correspondem ao início e ao fim do conto, e ambos focalizam o desfecho de uma história cujo início se deu há 30 anos.
( ) Após a separação entre Odilon e Eliane, que eram casados, ela foi amante de outro homem, Geraldo, que a abandonou, deixando-a em decadência econômica e física.
( ) Odilon era estudante de Medicina quando conheceu Eliane e lhe deu apoio na difícil situação enfrentada pela família com a doença do pai e, posteriormente, casou-se com ela.
( ) A referência ao Largo da Palma “vestido de branco” (l. 48) constitui uma alusão simbólica ao estado emocional de Eliane, após o encontro com Odilon e a aceitação de seu convite.
( ) O convite para o encontro entre Odilon e Eliane – por ela aceito imediatamente – foi feito através de uma carta que ele lhe enviou, mesmo sem indicar o assunto ou o motivo desse encontro.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a