TEXTO:
Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se
trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas
barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um
lado, cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam
[5] a picareta; de outro afeiçoavam lajedos a ponta de picão;
mais adiante, faziam paralelepípedos a escopro e
macete. E todo aquele retintim de ferramentas, e o
martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam
a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe,
[10] que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada;
tudo dava a ideia de uma atividade feroz, de uma luta de
vingança e de ódio. Aqueles homens gotejantes de
suor, bêbados de calor, desvairados de insolação, a
quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra,
[15] pareciam um punhado de demônios revoltados na sua
impotência contra o impassível gigante que os
contemplava com desprezo, imperturbável a todos os
golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso,
deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas
[20] de granito. O membrudo cavouqueiro havia chegado à
fralda do orgulhoso monstro de pedra; tinha-o cara a
cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio
surdo.
A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu
[25] lado mais imponente. Descomposta, com o escalavrado
flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e
desassombrada, afrontando o céu, muito íngreme, lisa,
escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe
escorriam pela ciclópica nudez com um efeito de teias
[30] de aranha. Em certos lugares, muito alto do chão, lhe
haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre
um precipício, miseráveis tábuas que, vistas cá de baixo,
pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos
pigmeus de forma humana equilibravam-se, desfechando
[35] golpes de picareta contra o gigante.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Nobel. 2009. p. 44.
De acordo com as ideias passadas pelo fragmento de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, os homens que trabalham na pedreira