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"Bacurau": Um canto de amor ao Nordeste no filme mais político dos últimos tempos...
O longa é cheio de metáforas nem sempre muito claras, mas contundentes, com uma inegável competência e originalidade para se apropriar da cultura popular nordestina para falar de luta e sobrevivência. E preservação da própria liberdade. A trama se passa "daqui a alguns anos", no sertão do oeste de Pernambuco. A cidadezinha (fictícia) de Bacurau sofre com sabotagens diversas: não recebe mais água, enquanto comida e medicamentos se tornam raridade. O sinal de celular está cortado, e a cidade literalmente sumiu de todos os mapas oficiais. Quando assassinatos começam a acontecer, a população local se une para resistir, mesmo que, para isso, precise ser tão violenta e sanguinária como os grupos interessados em dizimar a cidadezinha.
O povoado de Bacurau é provavelmente tudo o que Bolsonaro não gostaria que o Brasil fosse. As pessoas são pobres, escapam dos ideais de beleza canônicos brancos e europeus, mas são sobretudo livres e respeitam a liberdade de ser alheia. Personagens transgêneros, lésbicas e prostitutas são tratados com a mesma naturalidade e respeito que qualquer "cidadão de bem" do vilarejo.
São um povo unido e que tem amor próprio; se preciso, mancharão as mãos de sangue em nome da defesa de seu modo se ser, sua altivez e sua cultura, contra invasões e imposições do Brasil sulista ou estrangeiras. A grande vantagem do filme é que essa forma de ser e de pensar não parece idealizada ou glamorizada; existe muito da Bacurau do longa em diversos locais pelo Brasil, sobretudo no Nordeste, onde, a despeito da carência material, o senso de empatia e de humanidade ainda não se perdeu. O filme é um canto de amor a uma das características que o nordestino tem de mais admirável: sua capacidade de resistir e enfrentar as adversidades, sem perder a capacidade de ter compaixão e o respeito pelos demais. Mas, igualmente, de se impor quando a situação exige.
É provável que desde os filmes de Glauber Rocha (como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de 1964) nenhuma produção brasileira tenha feito um tratamento cinematográfico tão inspirado da mescla das tradições populares brasileiras aliadas ao cinema de gênero americano (sobretudo o faroeste) como o longa de Mendonça e Dornelles. E tudo é feito com veemência. Aliás, o estilo de "Bacurau" traz muito do cinema de Glauber, delirante e febril, por vezes de difícil compreensão para o grande público em seus detalhes, mas com uma mensagem geral clara. É um filme desigual, com muita coisa aparentemente pela metade, mas o efeito desestabilizador é positivo. O espectador precisa completar sozinho muito do sentido do que algumas cenas sugerem, e o trabalho cerebral é compensador. Mas o essencial está sempre lá.
O elenco é brilhante, e embora a expressiva Barbara Colen seja decepcionantemente desperdiçada em pouquíssimas cenas (começa como protagonista, mas praticamente desaparece com o decorrer do filme), a dupla de diretores utiliza com perfeição o talento de Sônia Braga no papel de uma médica da região e Udo Kier, ator alemão que interpreta um dos estrangeiros interessados em exterminar Bacurau. Há ainda composições impressionantes de Silvero Pereira, Karine Teles, Antônio Saboia e Jonny Mars.
Os filmes de Kleber Mendonça Filho costumam deixar claras marcas de excesso de roteirização, e embora o roteiro de "Bacurau" provavelmente também tenha sido bastante trabalhado, muito do que está ali parece estranhamente orgânico, fluido. Em seu cinema, há quase sempre alguma cena que tem por intuito causar estranhamento, desestabilizar o público, aparecendo na trama sem conexão (ou explicação racional) com o resto da narrativa, embora intuitivamente se compreenda o seu sentido no filme - a cachoeira de sangue de "O Som ao Redor", por exemplo. (...)
Ao apresentar o que uma narrativa tradicional evitaria, "Bacurau" exige que o público tenha um novo olhar sobre aquilo; existe algo mais político do que exigir que o espectador tenha um novo olhar sobre alguma coisa? Por isso mesmo, "Bacurau" é um dos filmes mais políticos, em vários níveis, feitos no Brasil nas últimas décadas. (Bruno Ghetti - http://twixar.me/ZpC1)
Em um texto, algumas expressões têm a função de conectar suas partes (orações, períodos e parágrafos), estabelecendo uma relação de sentido. No período abaixo:
Quando os assassinatos começam a acontecer, a população local se une para resistir, mesmo que, para isso, precise ser tão violenta e sanguinária como os grupos interessados em dizimar a cidadezinha.
I. O termo “quando” estabelece relação temporal entre as orações do período.
II. A expressão “mesmo que” estabelece relação semântica concessiva hipotética.
III. O pronome “isso” exerce função anafórica, pois se refere uma informação expressa na oração anterior.
IV. O termo “como”, no segmento, estabelece relação semântica de comparação e pode ser substituído por “tal qual”.
Está(ão) correta(s):