Texto
Certo dia em que me pus a pensar nisso, veio-me a reflexão de que não era mau
que andasse eu a escrever aquelas tolices. Seriam como que exercícios para bem
escrever, com fluidez, claro, simples, atraente, de modo a dirigir-me à massa comum dos
leitores, quando tentasse a grande obra, sem nenhum aparelho rebarbativo e pedante de
[5] fraseologia especial ou um falar abstrato que faria afastar de mim o grosso dos legentes.
Todo o homem, sendo capaz de discernir o verdadeiro do falso, por simples e natural
intuição, desde que se lhe ponha este em face daquele, seria muito melhor que me
dirigisse ao maior número possível, com auxílio de livros singelos, ao alcance das
inteligências médias com uma instrução geral, do que gastar tempo com obras só
[10] capazes de serem entendidas por sabichões enfatuados, abarrotados de títulos e
tiranizados na sua inteligência pelas tradições de escolas e academias e por
preconceitos livrescos e de autoridades. Devia tratar de questões particulares com o
espírito geral e expô-las com esse espírito.
Fonte: Barreto, Lima. Diário do Hospício; O cemitério dos vivos; prefácio Alfredo Bosi; organização e notas Augusto/Massi, Murilo Marcondes de Moura. 1 ed – São Paulo: Companhia das Letras 2017, p. 134.
Analise as proposições em relação à obra O cemitério dos vivos e ao autor Lima Barreto.
I. A obra é considerada pré-modernista, pois procura ressaltar a valorização da escrita e da leitura, porém de forma cotidiana; rompe com toda a estrutura do romance tradicional, apresenta capítulos curtos, independentes e perde a visão crítica da realidade brasileira.
II. O traço autobiográfico é uma característica marcante na obra, principalmente o relato das experiências transpostas para o personagem-narrador, refletindo o preconceito, os traços de mestiçagens ou negros, o vício, a loucura, enfim, reflexos da miséria humana.
III. Dentro do panorama literário, considera-se Lima Barreto da corrente pré-modernista por vários motivos: por sua produção literária ter ocorrido no período que antecedeu a Semana de Arte Moderna; suas obras apresentarem a ruptura com a cultura acadêmica, defesa das classes marginalizadas; linguagem jornalística e retratar a realidade brasileira, em especial, a população e os subúrbios cariocas.
IV. Lima Barreto retrata, na obra, o dia-a-dia, os hábitos e o tratamento recebido pelos internos de um manicômio, revelando o mundo tão estigmatizado dos insanos, por meio de uma linguagem aguçada e sensível, pois ele não está louco, encontra-se no local devido a alguns surtos pelo alcoolismo. O fato de não estar louco faz com que sua estada ali seja, ainda, mais sofrida, pois ele tem consciência e pondera a forma como os internos são tratados. Assim, da leitura da obra, entende-se, também, a crítica ao tratamento do sistema carcerário dos manicômios, à época.
V. Por insistência de sua esposa, Efigênia, Mascarenhas consegue realizar o sonho do pai dele, que era vê-lo doutor. Após concluir a escola politécnica, vai para o curso de engenharia, formando-se engenheiro civil, no entanto, não abandona o seu lado escritor, continuando a sua produção literária, o que viria integrá-lo ao conjunto dos mais destacados escritores do Pré-Modernismo.
Assinale a alternativa correta.