Texto
Certo dia em que me pus a pensar nisso, veio-me a reflexão de que não era mau
que andasse eu a escrever aquelas tolices. Seriam como que exercícios para bem
escrever, com fluidez, claro, simples, atraente, de modo a dirigir-me à massa comum dos
leitores, quando tentasse a grande obra, sem nenhum aparelho rebarbativo e pedante de
[5] fraseologia especial ou um falar abstrato que faria afastar de mim o grosso dos legentes.
Todo o homem, sendo capaz de discernir o verdadeiro do falso, por simples e natural
intuição, desde que se lhe ponha este em face daquele, seria muito melhor que me
dirigisse ao maior número possível, com auxílio de livros singelos, ao alcance das
inteligências médias com uma instrução geral, do que gastar tempo com obras só
[10] capazes de serem entendidas por sabichões enfatuados, abarrotados de títulos e
tiranizados na sua inteligência pelas tradições de escolas e academias e por
preconceitos livrescos e de autoridades. Devia tratar de questões particulares com o
espírito geral e expô-las com esse espírito.
Fonte: Barreto, Lima. Diário do Hospício; O cemitério dos vivos; prefácio Alfredo Bosi; organização e notas Augusto/Massi, Murilo Marcondes de Moura. 1 ed – São Paulo: Companhia das Letras 2017, p. 134.
Analise as proposições em relação à obra O cemitério dos vivos, Lima Barreto, e ao Texto.
I. A leitura da estrutura “Seriam como que exercícios para bem escrever, com fluidez, claro, simples, atraente” (linhas 2 e 3) leva o leitor a inferir que o autor refere-se às características do bom uso da linguagem, logo diz-se que há referência à função metalinguística.
II. Da Leitura do fragmento “de modo a dirigir-me à massa comum dos leitores” (linhas 3 e 4), infere-se que o autor, personagem-narrador, está se referindo à camada popular de leitores, ou seja, àquela sem formação acadêmica, não habituada à leitura.
III. Na leitura do final do parágrafo é possível estabelecer, também, uma característica bastante comum ao escritor Machado de Assis – a ironia; pois se infere, a ironia de Mascarenhas, à crítica aos autores com títulos acadêmicos, bagagem europeia, porém medíocres quanto à produção literária.
IV. A palavra “este” (linha 7) é anafórico da expressão “Todo o homem” (linha 6), enquanto “daquele” (linha 7) é catafórico de “me” (linha 7), assim tanto este quanto daquele são elementos que estabelecem coesão na estrutura textual.
V. A leitura da obra leva o leitor à dedução de que os fatos e os detalhes narrados, por Mascarenhas, evidenciam uma questão de acomodação, a partir do casamento dele com Efigênia. Além das muitas dificuldades e dívidas, permeia na obra, também, por parte de Mascarenhas, a não valorização da esposa, enquanto viva.
Assinale a alternativa correta.