TEXTO:
Cresci em um berço médico. Meu pai é médico.
Meu pai sempre sonhou que eu seguisse seu legado e,
mesmo que se policiasse para não transparecer seu
desejo, fazia de mim um médico em potencial... aos
[5] poucos. Entrei em um centro cirúrgico antes mesmo do
meu Ensino Médio. Sempre acreditei que existia um ar
divino na medicina, como um toque de Deus; como
gostam de dizer: medicina é um sacerdócio! Fechava
os olhos e imaginava as vidas que salvaria quando fosse
[10] médico...
Alguns dias já se passaram desde minha formatura
e muita coisa mudou — para melhor. Hoje sou mais
apaixonado pelo que faço, sofro de um amor realista,
não tenho ilusões vagas. Hoje sou mais médico do que
[15] ontem. Aprendi com o tempo o humanismo que envolve
a palavra medicina, o humanismo que envolve a relação
entre o médico e o paciente. Aprendi que somos feitos
de carne, osso, respeito e consideração ao próximo.
Consigo enxergar com muito mais clareza os
[20] motivos que nos movem, as razões que deveriam nos
mover. Hoje entendo que não podemos “salvar vidas”, ou
pelo menos raramente o faremos. “Salvar vidas” é algo
raro na vida de um médico, é preciso humildade para
reconhecer. No que consta em meus parcos domínios
[25] do conhecimento, 100% das pessoas morrem ao longo
de uma vida. Apesar de todo avanço da indústria
farmacêutica, dos métodos diagnósticos e técnicas
cirúrgicas, apesar de nossos esforços como médicos, o
curso final da vida de todo ser humano não foi alterado.
[30] Mas podemos sim ser inesquecíveis na vida de
alguém; podemos ser cruciais em suas vidas, podemos
ser importantes. Para isso, descobri, após me formar, o
peso da palavra cuidar. Cuidar é a essência do que
fazemos de bem e do que deveríamos ter feito quando
[35] fraquejamos. Uma vez cuidadores, somos hábeis para
ajudar e assim fazer a diferença. Quando nos
empenhamos em cuidar, entendemos melhor nossos
pacientes e suas enfermidades, somos mais precisos e
eficientes, mais humanos e justos. Uma vez cuidadores,
[40] somos seres especiais. Talvez exista, sim, algo divino
em ser cuidador, do mesmo modo que em ser mãe ou
ser amor.
Não quero com isso parecer simplista e minimizar
o compromisso humano que envolve a medicina, é
[45] preciso estar apto para ser médico. É preciso estar
preparado. Conheço inúmeros exemplos de bons
cuidadores despreparados e de médicos com uma
bagagem vasta, mas desinteressados em cuidar;
acredito que ambos são deletérios ao ser humano tão
[50] importante que chamamos de paciente.
Ser cuidador nos difere dos não cuidadores; isso
envolve escutar, esperar, fazer-se presente, considerar
valores contrários aos seus, saber ouvir, saber calar,
saber dizer sim e saber dizer não. Ser cuidador exige
[55] humildade de reconhecer erros e estar presente para
repará-los. Ser cuidador envolve, antes de mais nada,
se importar com o ser humano. No exercício de cuidar,
somos mais eficientes em curar, mais hábeis em
amenizar o sofrimento alheio. Cuidar nos salva enquanto
[60] médicos.
CELLIA, Pedro Henrique de Moraes. Das vidas que salvamos. Disponível em: <http://www.simesp.com.br/images/uploads/revistadr/ revista33.pdf>. Acesso em: 22 nov. 2017
Ao expressar a consciência de sua evolução como médico na passagem do tempo, o autor manifesta convicção quanto à