Texto
Crônica dos 30 anos
Fábio José dos Santos*
Na minha infância, havia uma
brincadeira através da qual, por meio de uma
espécie de numerologia pueril e leiga, era
possível descobrir, no presente dos oito ou nove
[5] anos, como seria o nosso futuro. Por meio dessa
consulta – séria, é bom deixar claro –, éramos
capazes de obter dados relacionados a áreas
diferentes da nossa vida. Era possível prever, por
exemplo, quando iríamos nos casar, qual seria
[10] nossa profissão, se seríamos ricos, pobres ou
lascados, e, ainda, quantos filhos teríamos.
Naquela época, contraí matrimônio aos vinte e
cinco, e tive três ou quatro filhos. Penso que
passei pelas três condições financeiras possíveis
[15] – comi caviar e degustei farinha seca. Ah, e
passei por várias profissões. (Não preciso dizer
que fiz a consulta mais de uma vez)
O fato é que, em geral, rejeitei, voluntária
ou involuntariamente, a série completa dos
[20] vaticínios que fiz quando criança. O Tempo é
senhor dos destinos, creio. Contudo, a história
não se escreve sozinha, ela é o resultado de
como conduzimos nossas vidas, muito embora
estejamos
habilitados a
escrever apenas
rascunhos, que
servem para compor
a versão mais ou
[30] menos final do livro
da vida (em certos
casos, o texto pode
ser reescrito, quase que integralmente).
Hoje é o dia em que celebro minha
[35] trigésima primavera. E enquanto recebo os
parabéns – inclusive de amigos distantes no
tempo e no espaço –, sinto que o Tempo já me
pesou menos. Com efeito, já lá se foram trinta
anos que comecei a morrer... E ainda me lembro
[40] do cheiro e do gosto de algumas coisas do
passado... Mas o passado passou. E o ruim
desse processo é que o tempo, inflexível, não
permite que recuemos na linha da vida até
aqueles momentos que tanto nos fizeram felizes.
[45] E, em trinta anos, quantas experiências
prazerosas eu tive...
Durante todos esses anos, eu cresci. O
mundo cresceu também. Aliás, tudo ficou maior.
É verdade que a experiência nos faz aumentar o
[50] tamanho das coisas que nos cercam. E o que
antes era pequeno, como era o nosso mundo,
assume proporções hercúleas. Por que mesmo
temos de ser responsáveis? Não seria bem mais
fácil se nossos pais sempre passassem à frente
[55] e, como há vinte, vinte e cinco anos, resolvessem
todos os problemas como sempre o fizeram, num
passe de mágica? E me fica a questão: é mesmo
imperativo que experimentemos a dor, o
desespero, as turbulências, enfim, a morte? Mas
[60] tudo isso estava lá, também.
De qualquer forma, hoje celebro trinta
anos de idade. Segundo o professor Narciso,
cheguei à metade da minha vida. De fato. De
fato. Nesse tempo, vi o mesmo de diversas
[65] formas. Conheci e continuo conhecendo muitas
coisas novas. Fui de um extremo ao outro dos
hemisférios do meu mundo. Eu mudei; tudo
mudou. E as previsões da infância não se
realizaram. Não casei aos vinte e cinco, não
[70] tenho (ainda?) nenhum dos quatro filhos que me
seriam destinados, não me tornei presidente nem
cantor. Aquelas previsões não foram bem
previstas. Contudo, preciso deixar claro: isso não
me frustra. Preciso dizer a todos: acho que sou
[75] muito bem sucedido. A emenda, se houve, saiu
bem melhor que o soneto. Preciso dizer, ainda: a
danada da consulta aos números lá dos idos
anos 80 não era capaz de prever aquilo que,
julgo, era mais fundamental, a saber, se o
[80] interessado seria ou não seria feliz, a despeito,
entre outros, de sua condição de rico, pobre ou
lascado. Mas eu posso afirmar, do alto dos meus
trinta bem vividos anos, que a felicidade tem-me
acompanhado ao longo de todos esses anos,
[85] razão por que me sinto, hoje, imensamente
realizado.
Os números erraram – graças a Deus!
__________
*Professor de Língua Portuguesa do IFAL, Campus
[90] Maceió
Na crônica, o autor usa expressões que nos remetem ao que já foi dito em outro momento do texto. Dentre as relações abaixo, apenas uma não corresponde às referências textuais feitas por ele. Assinale-a.