TEXTO:
Durante as duas últimas semanas, tenho
começado os meus dias cometendo um furto. Não sei
como evitar esse pecado e, para dizer a verdade, não
quero evitá-lo. A culpa é de uma amoreira que,
[5] desobedecendo às ordens do muro que a cerca, lançou
seus galhos sobre a calçada. Não satisfeita, encheu-os
de gordas amoras pretas, apetitosas, tentadoras, ao
alcance de minha mão. Parece que os frutos são, por
vocação, convites a furtos: basta mudar a ordem
[10] de uma única letra… Penso que o caso da amoreira
comprova esta tese linguística: tudo tem a ver com o
nome. Pois amora é a palavra que, se repetida muitas
vezes, amoramoramoramora, vira amor. Pois não é
isso que é o amor? Um desejo de comer, um desejo
[15] de ser comido… O muro, tal como o mandamento, diz
que é proibido. Mas o amor não se contém e, travestido
de amora, salta por cima da proibição. Foi assim no
Paraíso… [...] E para que não pairem dúvidas sobre a
inspiração teologal do meu ato, enquanto mastigo e o
[20] caldo roxo me suja dedos e boca, vou repetindo as
palavras sagradas: “Tomai e bebei, este é o meu
sangue…”. Ah! A divina amora, graciosa dádiva
sacramental! Começo assim meu dia, furtando o fruto
mágico que opera o milagre por todos sonhado de voltar
[25] a ser criança.
[...]
Ando toda manhã. Por razões médicas, é bem
verdade. Mas, mesmo que não existissem, andaria da
mesma forma [...]. Boa psicanalista é a natureza, sem
nada cobrar pelos sonhos de amor que nos faz sonhar.
ALVES, Rubem. Andar de manhã. Disponível em: <http:// www.contarhistorias.com.br/2014/08/rubem-alves-andar-demanha.html>. Acesso em: 30 jun. 2018.
Perpassa o texto a presença de uma figura de linguagem conhecida como