Texto
Hermano não falava nunca de sua casa. Alegava não compreender muito bem porque o homem devia ter um lar. O homem, diziam-lhe sempre, era o ser livre. Nem Deus o quis privar da liberdade. E Deus era o manda-chuva do mundo. E seu criador. Um dia, entediado, ele começou a brincar com barro, na sua olaria. Nos quintais do céu, Jeová havia mandado construir uma, para fabricar telhas e com elas consertar goteiras no purgatório. Brincando, suas mãos infinitamente idosas fizeram uma travessura digna de boa surra. Criaram o Homem! Um boneco de barro, metido a muita cousa. Mas Jeová se arrependeu da brincadeira. Vendo o que faria o boneco, saído de si em momento de tédio, atirou-o num monte enorme de barro. E lá o deixou. Livre.
Deus não fez como seu Manoel açougueiro que criou a Regina e o Chiquinho – um casal de bonecos pretos – e nunca mais os largou.
Hermano achava que o tal homem seria verdadeiramente livre se não tivesse todos os dias que ir a casa para almoçar. Para tomar banho. Para dormir. E mexer numa tulha cheia de problemas mesquinhos. Falta de feijão; educação, futuro, contas do padeiro, baratas e trabalho. Dogmas, normas, inibições. Para ele, o homem não era livre. Livre, sim, era o burro. Um burro come onde encontra capim. Não tem que voltar, tarde da noite, para uma cama no quarto de uma casa, numa rua de cidade. Quanta limitação! Qual, o homem não era livre.
[...]
(LEÃO, Ursulino. Maya. 2. ed. Goiânia: Kelps, 1975, p. 13. Adaptado.)
O Texto nos apresenta a ideia de que nem Deus quis privar o homem de sua liberdade. A questão da liberdade sempre esteve às voltas da formação humana. Segundo Sócrates, a concepção de liberdade acaba por imprimir uma orientação racionalista à ética. Assim, virtudes dependem do conhecimento que delas temos. Entretanto, encontramos uma noção de liberdade interior, relacionada ao próprio eu, e não mais vinculada apenas ao espaço público. Essa concepção acaba por gerar o conceito de livre arbítrio como faculdade da razão e da vontade. O primeiro filósofo a usar esse conceito, na obra De Libero Arbitrio Voluntatis (Sobre a livre escolha da vontade), é também o autor da seguinte citação: “É a necessidade que te obriga a fazer casa, não o livre arbítrio.”
Marque a alternativa que apresenta o autor desse pensamento: