TEXTO I
O apuizeiro é um polvo vegetal. Enrola-se ao indivíduo sacrificado, estendendo por sobre ele um milhar de tentáculos. O polvo de Gilliat dispunha de oito braços e quatrocentas ventosas; os do apuizeiro não se enumeram. Cada célula microscópica na estrutura de seu tecido se amolda numa boca sedenta. E é uma luta sem um murmúrio. Começa pela adaptação ao galho atacado de um fio lenhoso, vindo não se sabe donde. Depois, esse filete intumesce, e, avolumado, se põe, por sua vez a proliferar em outros. Por fim, a trama engrossa e avança constringente, para malhetar a presa, a que se substitui completamente. Como um sudário, o apuizeiro envolve um cadáver; o cadáver apodrece, o sudário reverdece imortal.
CUNHA, Euclides da. Disponível em: . Acesso em: 26 ago. 2018.
TEXTO II
Para meu amor
Apuizeiro,
apuizeiro,
onde meu ser termina
onde o teu principia,
grânulo de esperança,
átomo de floresta,
veneno verde
que me absorveste
toda a energia?!
Apuizeiro,
apuizeiro,
meus sonhos falhos
como os realizas,
como viceja minha ideia em ti!
são muito minhas
tuas atitudes,
sou toda tu
e, não me reconheço
és todo eu e já morri!
Apuizeiro,
apuizeiro,
dei-te meu corpo,
dei-te minha alma,
fiquei um vácuo
de ti repleta,
a custo a fronte mantenho no ar.
Minha agonia
se indetermina,
contenho a morte,
retenho a morte,
domino a morte:
revivo, à angústia do pensamento
de em minha queda te aniquilar.
MACHADO, Gilka. Poesia completa. São Paulo: Selo Demônio Negro, 2017. p. 370-371.
Considerando a descrição do Texto I, a voz poética do Texto II menciona o apuizeiro para conectá-lo