TEXTO I
RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo
[5] Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
[10] Tão simples, tão certa, tão fácil:
– em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, Cecília. Obra Poética de Cecília Meireles. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958.)
TEXTO II
ENVELHECER
Arnaldo Antunes/ Ortinho/ Marcelo Jeneci
[1] A coisa mais moderna que existe nessa vida é
[envelhecer
[2] A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra
[cabeça aparecer
[3] Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que
[agora é pra valer
[4] Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a
[esquecer
[5] Não quero morrer pois quero ver como será que deve
[ser envelhecer
[6] Eu quero é viver para ver qual é e dizer venha pra o
[que vai acontecer
(...)
[7] Pois ser eternamente adolescente nada é mais
[démodé* com os ralos fios de cabelo sobre a
[testa que não para de crescer
[8] Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e
[esquece de aprender
[9] Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai
[correr.
(...)
( www.arnaldoantunes.com.br/new/secdiscografiasel.php?id=679)
TEXTO III
ESTATUTO DO IDOSO (fragmentos)
Art. 2 – O idoso goza de todos os direitos fundamentais
inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção
integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por
lei ou por outros meios, todas as oportunidades e
[5] facilidades, para preservação de sua saúde física e
mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual,
espiritual e social, em condições de liberdade e
dignidade.
[10] Art. 4 – Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de
negligência, discriminação, violência, crueldade ou
opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação
ou por omissão, será punido na forma da lei.
(www.planalto.gov.br/ccvil03/leis/2003/L10.741.htm)
TEXTO VI
LEITE DERRAMADO
“Um homem muito velho está num leito de hospital.
E desfia a quem quiser ouvir suas memórias. Uma saga
familiar caracterizada pela decadência social e econômica,
tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos
dois séculos.”
Não sei por que você não me alivia a dor. Todo
dia a senhora levanta a persiana com bruteza e joga sol
no meu rosto. Não sei que graça pode achar dos meus
esgares, é uma pontada cada vez que respiro. Às vezes
[5] aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável,
para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor.
Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha
vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me
espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz.
[10] Quando perdi minha mulher, foi atroz. E qualquer coisa
que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta
ferida. Mas nem assim você me dá os remédios, você é
meio desumana. Acho que nem é da enfermagem,
nunca vi essa cara sua por aqui. Claro, você é a minha
[15] filha que estava na contraluz, me dê um beijo. Eu ia
mesmo lhe telefonar para me fazer companhia, me ler
jornais, romances russos. Fica essa televisão ligada o
dia inteiro, as pessoas aqui não são sociáveis. Não
estou me queixando de nada, seria uma ingratidão com
[20] você e com o seu filho. Mas se o garotão está tão rico,
não sei por que diabos não me interna em uma casa de
saúde tradicional, de religiosas. Eu próprio poderia
arcar com viagem e tratamento no estrangeiro, se o seu
marido não me tivesse arruinado.
(BUARQUE, Chico. Leite derramado. São Paulo: Companhia das
Letras, 2009, p. 10 – 11.)
Nos textos em geral, manifestam-se simultaneamente várias funções da linguagem. No entanto, sempre há o predomínio de uma sobre as outras. Após a leitura dos textos que constituem esta prova, assinale a alternativa correta.