Texto
- Mas que ossos tão miudinhos! São de criança”?
- Ele disse que eram de adulto. De um anão.
- De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados... Mas que maravilha, é
raro à beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí - admirou-se ela. Trouxe na ponta
[5] dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. -Tão perfeito, todos os
dentinhos!
- Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é
aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente, extra.
Telefone, também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa
[10] térmica, fecnem bem a garrafa - recomendou coçando a cabeça, A peruca se deslocou
ligeiramente. Soltou uma baforada final: - Não deixem a porta aberta senão meu gato
foge.
Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto
na escada. E a tosse encatarrada.
[15] Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da
veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso
de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira,
desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no
lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais
[20] alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva
assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou-a. Tirou
uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com
a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.
- Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as
[25] ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.
Telles, Lygia Fagundes. Melhores contos / Lygia Fagundes Telles, seleção de Eduardo Portella. — [13. Ed] - São Paulo: Global 2015, p. 123
Analise as proposições em relação à obra Melhores contos, Lygia Fagundes Telles, ao conto As formigas e ao Texto.
I. Embora a autora se enquadre no período pós-moderno ou contemporâneo, o conto possui uma linguagem simbólica, que comprova a exuberância da narrativa pela fusão de imagens (descrições) auditivas, olfativas e visuais, constituindo uma característica da escola simbolista — sinestesia.
Il. A descrição caricata da dona da pensão, a presença do animal de estimação — um gato, o codinome que ela recebe — bruxa, são elementos que causam estranheza e cotizam-se para a atmosfera do fantástico, do sobrenatural.
III. No período “e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel” (linha 22) a palavra destacada, e que estabelece a relação de comparação, pode ser substituída por tal qual, sem comprometer a classificação morfológica, o sentido e a coerência, no texto.
IV. Nas estruturas “é raro à beça” (linhas 3 e 4) e “Café das sete às nove” (linha 9) o sinal gráfico da crase somente é obrigatório na segunda estrutura, por se tratar de hora determinada, e na primeira estrutura o emprego é optativo.
V. Na oração “Não deixem a porta aberta senão meu gato foge” (linhas 11 e 12) a palavra em destaque pode ser substituída por se não, pois ambas têm a mesma acepção que contrário, logo não há alteração semântica.
Assinale a alternativa correta.