TEXTO:
– Meu compadre, você quer saber tudo, não lhe
basta o que já sabe? Não lhe chega para o livro?
Pedro Archanjo ria da pressa do compadre:
– O que sei ainda é pouco, até parece que
[5] quanto mais leio mais preciso ler e estudar.
Durante aquele comprido decênio, Pedro
Archanjo leu sobre antropologia, etnologia e
sociologia, o que encontrou na Bahia e o que fez vir
de fora, juntando tostões, seus e de outros. [...]
[10] Longa e árida seria a relação, mesmo incompleta, de
autores e livros estudados por mestre Archanjo, mas
vale registrar alguns detalhes de sua caminhada,
acompanhá-lo da indignação ao riso.
A princípio tinha de trancar os dentes para
[15] prosseguir na leitura de racistas confessos e, pior
ainda, dos envergonhados. Apertava os punhos: teses
e afirmações soavam como insultos, eram bofetadas,
surras de chicote. [...]
Até o último dia de sua vida aprendeu com o
[20] povo e tomou notas nas cadernetas. Pouco antes de
morrer, acertara com o estudante Oliva, sócio de
empresa gráfica, a publicação de um livro e, ao rolar
no Pelourinho, repetia uma frase pouco antes ouvida
da boca de um ferreiro: nem Deus pode terminar com
[25] o povo. Perdera, no entanto, quase todos os seus
livros, a preciosa coleção, reunida pouco a pouco à
custa de imenso esforço e da ajuda de tantos homens
rudes e pobres, trabalhadores e cachaceiros. A
maioria dos volumes foi destruída por ocasião do
[30] assalto à oficina, outros desapareceram aqui e ali,
em mudanças e correrias, vendidos a Bonfanti em
horas de desesperado aperto. Guardou uns poucos,
os fundamentais em seu aprendizado. Mesmo
quando já não os lia, gostava de tê-los à mão, repassar
[35] as folhas, demorar os olhos gastos numa página,
repetir de memória uma frase, um conceito, uma
palavra. Entre os livros que conservou no caixão de
querosene no quartinho dos fundos do castelo de
Ester, encontrava-se uma velha edição do ensaio de
[40] Gobineau e o primeiro opúsculo do professor Nilo
Argolo de Araújo. Pedro Archanjo partira do ódio para
o saber.
AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 175-176.
Há a identificação correta de um fato de morfossintaxe devidamente marcado em
I. “não lhe basta o que já sabe? (l. 1-2) – Caso de colocação pronominal.
II. “Pedro Archanjo ria da pressa” (l. 3) – Conectivo que marca uma regência.
III. “Longa e árida seria a relação” (l. 10) – Função de predicativo do sujeito.
IV. “por ocasião do assalto à oficina” ( l. 29-30) – Objeto indireto.
V. “gostava de tê-los à mão” (l. 34) – Adjunto adverbial.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a