TEXTO
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma,
herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo
da noite. Houve um momento em que o silêncio foi
tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera,
[5] que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa
criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De
primeiro: passou mais de seis anos não falando. Se
o incitavam a falar, exclamava:
[10] — Ai! que preguiça!. . .
e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca,
trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos
outros e principalmente os dois manos que tinha,
Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O
[15] divertimento dele era decepar cabeça de saúva.
Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro,
Macunaíma dandava pra ganhar vintém.
ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 30. ed. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Villa Rica, 1997. p. 9.
O fragmento destacado pertence a uma obra ícone da literatura modernista do início do século XX e evidencia seu caráter antropofágico, na medida em que