Texto – Normativismo do bom
Xoán Carlos Lagares Diez (UFF) - Parte II
A tradição normativa está ligada à expressão escrita, de maneira que inserir as pessoas na cultura letrada no próprio idioma supõe que elas se apropriem dessa tradição. A apropriação deve ser, porém, crítica. Simplificando um pouco, podemos dizer que a principal questão glotopolítica em torno da norma-padrão diz respeito à tensão entre a manutenção secular de uma tradição fossilizada e a sua necessária renovação, de acordo com os usos linguísticos mais comuns, assim como ao grau e à intensidade dessa renovação e às suas fontes. Podemos reconhecer sem drama que essa talvez seja uma tensão infindável: não há norma sem conflito. Porém, historicamente, essa disputa vem se dando apenas entre as elites letradas, e costuma ser uma luta desequilibrada pelas relações de poder entre elas. Do meu ponto de vista, democratizar as relações linguísticas supõe arrancar o debate normativo das mãos das elites socioeconômicas, trazê-lo para o chão de escolas e universidades, inserir a população estudantil em geral, em sua prática cotidiana de escrita acadêmica, na arena dessa disputa. De alguma maneira, desenvolver habilidades de leitura e escrita é se deparar com essas questões; fazê-lo de maneira consciente e reflexiva ou asfixiado pelo coturno autoritário de uma norma-padrão fantasmagórica faz toda a diferença.
Escancarar o debate, à luz de um normativismo moderado e flexível, tem um outro efeito positivo, pois joga no baú das coisas inservíveis tanta dica arbitrária de “correção” inventada pelos comandos paragramaticais (como expressivamente os denomina Marcos Bagno), esses consultórios midiáticos e esses gramáticos de meia tigela que acreditam ter acesso privilegiado às tábuas da lei da língua. Para uma vida linguística mais saudável, podemos substituir as dicas arbitrárias de correção pela leitura e estudo dos bons instrumentos linguísticos da língua portuguesa.
[...] Além disso, o comportamento linguístico, como qualquer outro comportamento social, está regido pela coerção social. E a norma-padrão, como toda regulamentação de comportamentos, é intrinsecamente discriminatória. Por isso é tão necessária uma pedagogia da norma-padrão, porque precisamos entender como e onde surgiram essas coerções se queremos ter a capacidade de decidir até onde respeitá-las e se pretendemos subvertê-las ou, simplesmente, ignorá-las. É claro que conseguir certa liberdade para navegar com confiança nos mares da norma-padrão só é possível numa sociedade menos autoritária e com oportunidades mais bem (ou melhor, tanto faz) distribuídas. Um horizonte utópico que eu não quero perder de vista. [...]
Simplificando um pouco, podemos dizer que a principal questão glotopolítica em torno da normapadrão diz respeito à tensão entre a manutenção secular de uma tradição fossilizada e a sua necessária renovação, de acordo com os usos linguísticos mais comuns, assim como ao grau e à intensidade dessa renovação e às suas fontes. Podemos reconhecer sem drama que essa talvez seja uma tensão infindável: não há norma sem conflito. Porém, historicamente, essa disputa vem se dando apenas entre as elites letradas, e costuma ser uma luta desequilibrada pelas relações de poder entre elas.
(Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/normativismo-do-bom. Acesso em: 20 set. 2022)
Atente para os excertos a seguir:
I - “Por esse motivo, uma pedagogia da variação que aspire a mudar as relações linguísticas (e sociais) não pode deixar de lado a reflexão sobre esses valores associados aos usos nem pode desistir da sua crítica fundamentada.”
II - “Por isso é tão necessária uma pedagogia da norma-padrão, porque precisamos entender como e onde surgiram essas coerções se queremos ter a capacidade de decidir até onde respeitá-las e se pretendemos subvertê-las ou, simplesmente, ignorá-las.”
Sobre eles, está INCORRETO o que se afirma em: