TEXTO:
O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada
— Severino, retirante
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
[5] se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
é difícil defender,
[10] só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
[15] ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
[20] que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
[25] mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
[30] de uma vida severina.
MELLO NETO, João Cabral. Morte e Vida Severina. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p. 241.
Sobre a imagem do quadro de Cândido Portinari e a obra de João Cabral, é improcedente afirmar: