TEXTO:
O poeta
No telefone do poeta
desceram vozes sem cabeça
desceu um susto desceu o medo
da morte de neve.
[5] O telefone com asas e o poeta
pensando que fosse o avião
que levaria de sua noite furiosa
aquelas máquinas em fuga.
Ora, na sala do poeta o relógio
[10] marcava horas que ninguém vivera.
O telefone nem mulher nem sobrado,
ao telefone o pássaro-trovão.
Nuvens porém brancas de pássaros
acenderam a noite do poeta
[15] e nos olhos, vistos por fora, do poeta
vão nascer duas flores secas.
NETO, João Cabral de. Obra completa. v. único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 52-3.
João Cabral de Melo Neto, pernambucano, engenheiro e poeta, fez de sua obra uma constante questão matemática, com a habilidade de um construtor de palavras, era rigoroso com seus poemas, apresentando uma obra considerada construtivista.
São características pertinentes à obra do autor, excetuando-se