TEXTO
O suplício da mangueira centenária
[...]
Foi um momento de drama e de emoção. A raiz da mangueira reagiu à força dos homens e das máquinas. Ela resistia para não ir embora. Depois de cem anos, ela fazia parte daquela terra, daquele espaço. Vieram homens da Prefeitura com a Grande Máquina que prendia em si fortes correntes. Foi retirado o portão e parte do muro para que ela pudesse passar. Aquele povo todo descendo para a Rua de Baixo para assistir ao espetáculo e ela parada, dentro da cratera, não movia uma farpa sequer de seu enorme corpo. Os homens da Prefeitura, então, amarraram-lhe o corpo com as enormes correntes e começaram a acionar o motor da Grande Máquina para forçar a saída da raiz de dentro da enorme cratera. Mas as correntes escapavam e tudo voltava à estaca zero. Depois de algumas tentativas e rearranjos de matérias foi dado um forte arranque e ela foi jogada para fora. Daí, o sofrimento foi bem maior. Aquela raiz meio batata gigante rolava para um lado e para o outro como os loucos que não querem ser segurados ou como um animal feroz que se vê indo para a jaula. E a máquina começou a andar em direção da rua que estava encrespada de gente. O olho do povo estava arregalado e alguns até choravam. Muitas e muitas daquelas pessoas iam todos os anos lá pelos meados de dezembro buscar frutas que a mangueira produzia. Era das mais doces da cidade.
Naquela dificuldade de puxar a raiz, a máquina ziguezagueava e isso causava um barulho ensurdecedor. E simultaneamente, a última parte da árvore parecia responder a isso ao persistir nos gestos de resistência, enrolando-se e enrolando as correntes, ameaçando, tombando para os lados para dificultar a linha reta da máquina, enfim, não tinha como encontrar um acordo para a expulsão da raiz de seu habitat. E, assim, com todo esse esforço, a máquina conseguiu atravessar os limites do quintal e atingir a rua, arrastando a raiz. A raiz foi dominada ou foi domada pela força do homem. Mas ao entrar na rua, ela ainda guardava muita energia. Conforme a máquina a puxava ela ia amassando o asfalto e deixando seu rastro por onde passava.
(GONÇALVES, Aguinaldo. Das estampas. São Paulo: Nankin, 2013. p. 62-63.)
O Texto apresenta uma reflexão sobre a relação dos homens com o meio ambiente. No ano de 2015, o Papa Francisco escreveu a encíclica que trata do cuidado da Casa Comum. Nela, ele trata da importância de todas as pessoas, religiosas ou não, buscarem, por iniciativas ousadas e urgentes, cuidar do mundo. De acordo com esse documento, o meio ambiente é um bem comum, uma herança coletiva de toda a humanidade, e somos todos responsáveis por ele. O Papa Francisco nos faz lembrar – das pessoas comuns aos líderes mundiais – que o enfrentamento das injustiças sociais e climáticas é um imperativo moral. Os pobres são os mais afetados pelas mudanças climáticas catastróficas, embora tenham sido os que menos contribuíram para o problema. Leia atentamente o fragmento a seguir:
A especialização própria da tecnologia importa grande dificuldade para se conseguir um olhar de conjunto. A fragmentação do saber propicia a obtenção de aplicações concretas, mas frequentemente leva à perda do sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado, e valoriza um sentido irrelevante. Isso impede de individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo atual, sobretudo os do meio ambiente e os dos pobres. Problemas que não podem ser enfrentados a partir de uma única perspectiva, nem de um único tipo de interesse. Uma ciência que pretenda oferecer soluções para os grandes problemas deve necessariamente ter em conta tudo o que o conhecimento gerou em todas as áreas do saber, incluindo a Filosofia e a Ética Social. Mas, atualmente, isso é difícil de se conseguir. Por isso, também é difícil o reconhecimento de verdadeiros horizontes éticos de referência. A vida passa a ser uma rendição às circunstâncias condicionadas pela técnica, entendida como um recurso principal para a interpretação da existência. Na realidade concreta que nos interpela, vários sintomas mostram o erro: a degradação ambiental, a ansiedade, a perda do sentido da vida e da convivência social. Assim, se demonstra uma vez mais que a “realidade é superior à ideia”.
(Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francescomobile/pt/ encyclicals/documents/papa-francesco20150524enciclica−laudatosi.html. Acesso em: 20 jan. 2016. Adaptado.)
Com base nessas informações, analise as afirmações a seguir:
I - A técnica, segundo o Pontífice, é a única solução para a crise mundial. Para sairmos da crise, é necessário fazer valer a máxima: “might makes right” (o poder faz o direito). O fato de algo ser tecnicamente viável também o torna moralmente lícito. O antropocentrismo absolutiza as vontades e convicções individuais. Isso acaba por fortalecer a sociedade, como já afirmava Espinosa. Afinal, para ele existe um Deus metafisico, que é responsável pelo nosso livre-arbítrio.
II - Francisco lembra o quanto são benéficos os progressos científicos e tecnológicos, mas, ao mesmo tempo, recorda que toda e qualquer intervenção em uma área determinada do ecossistema não pode prescindir da consideração de suas consequências em outras áreas.
III - Na encíclica, o Papa Francisco não se limitou a escrever sobre os danos que a humanidade está causando ao meio ambiente. Ele desenvolveu uma visão ampliada, que dá um sentido social e humano à questão. Ele descreve como é trágica a situação dos migrantes que fogem da miséria causada pela degradação ambiental, e carregam o peso da sua vida abandonada, sem qualquer tutela normativa.
Em relação às proposições analisadas, assinale a alternativa que contém todos os itens corretos: