TEXTO
O verbo ler não suporta imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”... o
verbo “sonhar”... Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia
logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”
— Vá para o seu quarto e leia!
[5] Resultado?
Nulo.
Ele dormiu em cima do livro. A janela, de repente, pareceu-lhe imensamente aberta sobre uma coisa
qualquer tentadora. Foi por ali que ele decolou. Para escapar ao livro. Mas é um sono vigilante: o
livro continua aberto diante dele. E no pouco que abrimos a porta de seu quarto, nós o encontramos
[10] sentado junto à escrivaninha, seriamente ocupado em ler. Mesmo se nos aproximamos na ponta
dos pés, da superfície de seu sono ele terá nos escutado chegar.
— Então, está gostando?
Ele não vai nos responder que não, isto seria um crime de lesa-majestade*. O livro é sagrado, como
é possível não gostar de ler? Não, ele vai dizer que as descrições são longas demais.
[15] Tranquilizados, voltamos ao nosso aparelho de televisão. E é até possível que esta reflexão suscite
um apaixonante debate entre nós e os outros como nós...
— Ele acha as descrições longas demais. É preciso entender, estamos no século do audiovisual,
evidentemente os romancistas do século dezenove tinham que descrever tudo...
— Mas isto não é razão para pular a metade das páginas!
[20] Não vamos nos cansar, ele voltou a dormir.
O que foi então que aconteceu com aquela intimidade que existia na infância com o livro?
Agora, ele se bate contra um livro-falésia, enquanto nós procuramos entendê-lo (quer dizer, nos
tranquilizarmos), incriminando o século e a televisão — que nos esquecemos talvez de apagar?
Culpa da tevê?
[25] O século vinte demasiado visual? O século dezenove descritivo? E por que não o dezoito racional
demais, o dezessete clássico demais, o dezesseis Renascença demais?
Daniel Penac Adaptado de Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
* lesa-majestade: ofensa a uma autoridade
Mas é um sono vigilante: o livro continua aberto diante dele. (l. 8-9)
Na frase acima, os dois-pontos poderiam ser substituídos, sem alteração significativa de sentido, pelo seguinte conector: