TEXTO
Olho com desconfiança para a anciã grisalha e mirrada, mas com boa aparência, procurando brechas, fissuras onde pudesse injetar meu veneno. Pelo que eu sabia, Laura tinha mais de noventa anos. Quase um século vivido ali, impune e imune. Salva da própria maldade e completamente alheia às grandes tragédias que assolam o Planeta. Pensei: encastelada neste lugar, ela viu passar a Coluna Prestes, atravessou a Grande Recessão, a Primeira e a Segunda Grandes Guerras Mundiais; o surgimento e a queda do Estado Novo. Estava aqui, livre e solta, quando o Muro da Vergonha aprisionou inocentes; continuava no mesmo lugar no momento em que a muralha foi caninamente destroçada; guerras devastaram a África, dizimando tribos inteiras. Não tomou conhecimento das inúmeras invasões pelo Globo afora; ignorou a troca de mãos sofrida por populações inteiras, como se gente fosse mercadoria. Tornados, avalanchas, terremotos. Desconhece que mudanças climáticas instigam a ira da natureza e ninguém mais sabe onde vamos parar. Nada, nem a catástrofe em andamento parece perturbar a paz de seus dias iguais. Estou certa de que a velha ignora completamente a famigerada ação terrorista; a praga das drogas. De repente, parei meu tiroteio absurdo enquanto pensava: e quanto ao seu universo interior? Sim, porque ela deve ter um.
(BARROS, Adelice da Silveira. Mesa dos inocentes. Goiânia: Kelps, 2010. p. 13-14.)
O Texto menciona a personagem Laura, com mais de 90 anos, e a descreve como uma pessoa insensível, “salva da própria maldade”. Essa passagem remete à temática da ética, tanto repisada ao longo da história do pensamento humano. Analise as afirmativas a seguir, que tratam sobre a ética:
I - Platão (427–345 a.C.) em seus Diálogos ocupou-se por muitas vezes das virtudes e da natureza do bem. Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, dedicou uma obra ao assunto: Ética a Nicômaco. Essa obra é considerada uma parte da Política, uma vez que antecede a própria Política. Ela diz respeito ao indivíduo, enquanto a Política considera o homem em sua dimensão social.
II - Na Época Moderna, a produção sobre a ética é abundante. Descartes (1596-1640) nas Meditações metafísicas, trata do certo e do errado e, no Discurso do método, trata do modo que bem e mal vinculavam-se à fé e dependiam da esperança da vida após a morte. Spinoza (1632-1677) tem uma obra inteira, Ética, em que descreve, de maneira poética, como a tristeza nos permite entender melhor a dor e, por consequência, conduzir melhor o nosso agir. Nessa situação, Spinoza garante que a razão precisa se opor aos afetos.
III - Kant (1724-1804) trata do tema, ética, de maneira exaustiva. Obras como Fundamentação da metafísica dos costumes (1785) e Crítica da razão prática e Metafísica dos costumes mostram o quanto se dedicou ao assunto. Ele acreditava que a moralidade pode resumir- -se num princípio fundamental, a partir do qual derivam todos os nossos deveres e obrigações. Chamou esse princípio de “imperativo categórico”. Ele assim o exprimiu: “Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal.”
IV - Nietzsche (1844-1900) tem famosas reflexões sobre moral e ética. Em Genealogia da moral, ele se ocupa em criticar as éticas socrática, kantiana e cristã, que, segundo ele, são “morais afirmativas”. Essas morais podem conduzir ao resgate da individualidade da pessoa. Uma releitura dos grandes filósofos possibilita o aproveitamento de conceitos como criatividade, sentimento estético e vontade, ferramentas que ajudam a construir uma ética universal tão defendida na Genealogia da moral. No prólogo dessa obra, Nietzsche enuncia sua antiga exigência: os fracos deverão ser protegidos da vontade dos fortes
Em relação às proposições analisadas, assinale a única alternativa cujos itens estão todos corretos: