TEXTO:
Os mares, minha bela, não se movem;
o brando norte assopra, nem diviso
uma nuvem sequer na esfera toda;
o destro nauta aqui não é preciso;
[5] eu só conduzo a nau, eu só modero
do seu governo a roda.
Mas ah! que o sul carrega, o mar se empola,
rasga-se a vela, o mastaréu se parte!
Qualquer varão prudente aqui já teme;
[10] não tenho a necessária força e arte.
Corra o sábio piloto, corra e venha
reger o duro leme.
Como sucede à nau no mar, sucede
aos homens na ventura e na desgraça;
[15] basta ao feliz não ter total demência;
mas quem de venturoso a triste passa,
deve entregar o leme do discurso
nas mãos da sã prudência.
Todo o céu se cobriu, os raios chovem;
[20] e esta alma, em tanta pena consternada,
nem sabe aonde possa achar conforto.
Ah! não, não tardes, vem, Marília amada,
toma o leme da nau, mareia o pano,
vai-a a salvar no porto!
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. São Paulo: Círculo do Livro, s/d. p. 94-5.
Considerando-se os versos do poema, é pertinente afirmar que eles refletem