Texto para a questão
Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hóspede além do
Henrique, o velho Botelho. Este, porém, na qualidade de parasita.
Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo
branco, curto e duro, como escova, barba e bigode do mesmo teor; muito
[5] macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da
pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo
com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-se-lhe ainda todos
os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio. Andava sempre
[10] de preto, com um guarda-chuva debaixo do braço e um chapéu de Braga
enterrado nas orelhas. Fora em seu tempo empregado do comércio, depois
corretor de escravos; contava mesmo que estivera mais de uma vez na África
negociando negros por sua conta. Atirou-se muito às especulações; durante a
[15] guerra do Paraguai ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda
desandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as
garras de ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desilusões, cheio
de hemorroidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava à sombra do
[20] Miranda, com quem por muitos anos trabalhou em rapaz, sob as ordens do
mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a princípio por acaso e mais
tarde por necessidade.
Devorava-o, noite e dia, uma implacável amargura, uma surda tristeza
[25] de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não lhe
ter sido possível empolgar o mundo com as suas mãos hoje inúteis e trêmulas.
E, como o seu atual estado de miséria não lhe permitia abrir contra ninguém
o bico, desabafava vituperando as ideias da época.
Aluísio Azevedo, O cortiço.
Entre as marcas do Naturalismo, que estão presentes no excerto, só NÃO se encontra o que está na seguinte alternativa: