TEXTO
Páscoa
Velhice é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
[5] Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos.
A segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui louca e lírica,
[10] não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
[15] não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
“põe o agasalho”
[20] “tens coragem?”
“por que não vais de óculos?”
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
[25] Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.”
PRADO, Adélia. Páscoa. Bagagem. Disponível em: <http:// wp.clicrbs.com.br/mardeideias/2013/12/13/pascoa-adelia-prado/ ?topo=87,1,1,,,87>. Acesso em: 27 nov. 2017.
Os versos de Adélia Prado revelam um eu poético