TEXTO
[...]. Por que foi esmorecendo aquele estado de boa convivência e carinho que me deixava tão feliz? A quem deveria ser debitado o desencontro que foi se instalando na nossa relação de mãe e filha até findar naquele estouro horrível por causa da minha recusa a ser avó profissional aqui no Sul? Ou tudo já tinha passado?, um pesadelo e só
Hoje me parece incrível que eu não tenha respondido às palavras duras da minha filha, que tenha conseguido me manter calada como um peixe até que chegou o fim das férias de Norinha e ela se foi, praticamente batendo a porta, e eu tratando de me convencer de que, quem sabe?, aquilo tudo tinha sido apenas uma ideia que lhe passou pela cabeça de repente, aquele desabafo acusatório todo contra mim, fruto de algum mal-estar, ou a tal da TPM?, e um bocado de fantasia sobre sua infância e adolescência. Já tinha passado, não era a sério, tocar a vida pra frente.
Disse a mim mesma que era só questão de amainar o meu coração e procurar se não havia mesmo um problema comigo. Talvez tudo se resumisse no resultado de todas as minhas frustradas tentativas de fazer outras coisas que gostaria, tendo sempre de ceder a vez pras prioridades dos outros, da minha filha mais que todos. Norinha teria intuído alguma amargura escondida em mim e interpretado confusamente, à maneira dela, agora extravasava daquele jeito. Cheguei a pensar que era a mim que se devia debitar... ninguém me obrigou a ceder... eu devia ter feito tudo ou pelo menos muito do que desejava nesta vida [...] ... Quem sabe ainda é tempo de resgatar alguns desejos por cumprir? Vamos lá, amanhã será um novo dia. Vou começar a tricotar a minha nova felicidade, eu me dizia, e é bem provável que eu recupere a boa vontade pra com Norinha e enxergue nos atos e nas palavras dela mais cortesia e amor, as únicas coisas indispensáveis pra viver.
(REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. 3. reimpr. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016. p. 30-32.)
As considerações feitas pela protagonista no último parágrafo do Texto nos levam a reconhecer um conflito pessoal: não é mais uma jovem e reflete sobre as conquistas e perdas em sua vida madura. Sobre essas suas considerações, analise os itens a seguir a fim de optar por uma conclusão a que se pode chegar:
I - A filha é a responsável pelo conflito existencial da mãe, já que teria intuído amargura no comportamento da genitora diante do seu pedido para auxiliá-la com o filho e mostra-se descontente com isso.
II - A mãe entra em conflito existencial por saber que a filha precisa de sua ajuda e que, devido às reflexões e ao problema que tem, precisa, antes, amainar seu coração e ficar mais equilibrada para só então ser avó profissional.
III - A mãe entra em conflito existencial por reconhecer ter-se doado aos outros em detrimento de suas realizações pessoais, reconhecendo também sua responsabilidade nessa escolha e, já na fase madura da vida, decide mudar de postura e buscar sua realização pessoal.
IV - A filha acostumara-se a ter o auxílio irrestrito da mãe até aquele momento da vida e, agora, diante de uma negativa que frustraria seus planos, usou de atos e palavras duras, o que desencadeou na mãe a reflexão sobre sua responsabilidade no problema e o desejo de mudar.
Assinale a opção que aponta justificativas corretas para o conflito da mãe: