TEXTO:
Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se
foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o
que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato.
Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois
5 para uma cidade, e os meninos frequentariam
escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitória
esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as
mãos agarradas à boca do saco e à coronha da
espingarda de pederneira.
[10] Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas
que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças
que empestavam o caminho. As palavras de Sinha
Vitória encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam
uma terra desconhecida.
[15] Fabiano estava contente e acreditava nessa terra,
porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia
docilmente as palavras de Sinha Vitória, as palavras que
Sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E
andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade
[20] grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em
escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles
dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros,
inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer?
Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra
[25] desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E
o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão
mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como
Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.
RAMOS, G. Vidas Secas. 71. ed. São Paulo: Record, 1996. p. 125-126
“Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia.” (l. 21-23)
Os termos “cachorros” e “Baleia”, dentro do contexto da passagem e no todo do livro, revelam