TEXTO:
Quando um homem morre, ele se reintegra em
sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo
cometido loucuras em vida. A morte apaga, com sua
mão de ausência, as manchas do passado e a
[5] memória do morto fulge como diamante. Essa a tese
da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo
eles, Quincas Berro Dágua, ao morrer, voltara a ser
aquele amigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha,
de boa família, exemplar funcionário da mesa de
[10] rendas estadual, de passo medido, barba escanhoada,
paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido
com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo
e a política, jamais visto num botequim, de cachaça
caseira e comedida. Em realidade, num esforço digno
[15] de todos os aplausos, a família conseguira que assim
brilhasse, sem jaça, a memória de Quincas desde
alguns anos, ao decretá-lo morto para a sociedade.
Dele falavam no passado quando, obrigados pelas
circunstâncias, a ele se referiam.
AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. São Paulo, Companhia das Letras, 2008. p. 91-92.
Sobre o personagem central da obra de onde foi extraído o trecho acima, é correto afirmar:
I. Quincas Berro Dágua e Joaquim Soares da Cunha correspondem a traços contrastantes de um mesmo indivíduo, sendo Quincas uma transmutação de Joaquim, que rompe com as configurações de sua vida social de teor burguês.
II. Quincas e Joaquim, apesar de comportamentos antitéticos, são amigos e têm em comum o nome e o desejo de promover uma ruptura com tudo que represente a opressão: o funcionalismo público e o conservadorismo de suas respectivas famílias.
III. O personagem central sintetiza uma oposição entre um ícone da ordem burguesa – o funcionário público exemplar Joaquim Soares da Cunha, esposo, pai e cidadão de bem – e a marginalidade – representada pelo boêmio e malandro Quincas Berro Dágua.
IV. Para Joaquim, Quincas é o seu alter ego, um ser imaginário que representa seu desejo reprimido e não consumado de romper com as amarras de um emprego monótono de funcionário público e os vínculos sufocantes de uma família conservadora.
V. Apesar do título, na obra, há três mortes do personagem: a morte moral, promovida pela família para ocultar a ruptura de Joaquim com a ordem estabelecida, a morte real, ocorrida na pocilga em que ele morava como boêmio, e a morte onírica ou fantástica, narrada pelos amigos, ocorrida nos mares da Bahia.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a