Texto
Revista Veja, 21 out. 2013
Página infeliz da nossa história
Jerônimo Teixeira
São apenas três os tipos de biografias. Existem as autorizadas e as não autorizadas, ambas, a despeito de sua qualidade, úteis à sociedade. O terceiro tipo é um tiro no pé das democracias, é a biografia censurada. Pois é justamente esse o tipo de biografia que nossos ídolos querem ver prevalecer no Brasil. Nossos ídolos não são mais os mesmos. Eles passaram a semana inteira tentando, em vão, explicar que acham sensato o biografado censurar sua biografia, mas que isso não significa a morte da liberdade, justamente a causa que os tomou célebres, admirados, amados e, claro, biografáveis! Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfiaram-se em um labirinto retórico de dar dó. A cada nova justificativa, desciam mais um degrau do autoritarismo. A cada falsidade desmascarada, desciam um ponto na escala da admiração que conquistaram no coração dos brasileiros.
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Está em jogo neste debate, um princípio inegociável da democracia: a liberdade de expressão. Embora seja vital para todo e qualquer cidadão, a liberdade de expressão deveria ser especialmente cara a quem tem na arte o seu ofício, e talvez ainda mais aos músicos da geração que nos anos 60 e 70, sofreu com a censura do regime militar. No entanto, foram estes que se mobilizaram para solapar esse fundamento do Estado de direito. No grupo ridiculamente chamado Procure Saber, capitaneado pela hábil empresária Paula Lavigne, estão Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Roberto Carlos. De início, o grupo organizou-se para pedir mudanças na legislação sobre direitos autorais. Mas, no encontro que a trupe teve com a presidente para falar desse tema, Roberto Carlos aproveitou para adiantar sua preocupação maior: a manutenção dos dispositivos do Código Civil que permitem o veto a biografias não autorizadas. Esses pontos da lei estão sendo contestados, no Supremo Tribunal Federal, por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pela Associação Nacional de Editores de Livros.
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As biografias são, desde a Antiguidade, fontes de informação preciosas — saberíamos menos sobre Alexandre, o Grande, ou Júlio César sem as Vidas Paralelas, de Plutarco —, mas não são apenas coleções aleatórias de fatos: elas oferecem uma interpretação do personagem e de seu tempo. "Nenhuma biografia é definitiva. Na França, deve estar na casa do milhão o número de biografias de Napoleão e a cada uma delas se renova a percepção sobre o personagem", diz a historiadora Mary Del Priore. É difícil e doloroso caracterizar Caetano, Gil, Chico e companhia como censores. Não combina com eles e suas obras. Talvez essa recaída no obscurantismo seja apenas uma página infeliz da nossa história.
Os elementos destacados no texto estabelecem, respectivamente, ideia de