TEXTO:
Viagem a Petrópolis
Era uma velha sequinha que, doce e obstinada,
não parecia compreender que estava só no mundo. Os
olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre
o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida.
[5] No tecido já endurecido encontravam-se pequenas
crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia
agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa
amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E
as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde
[10] dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe
perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela
fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:
— Mocinha.
[...]
— E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro
[15] e você toma o trem para o Rio, ouviu? Volta para a casa
de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é
asilo, viu? aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo
não é asilo não, viu!
[...]
A estrada subia muito. A estrada era mais bonita
[20] que o Rio de Janeiro, e subia muito. Mocinha sentou-se
numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder
apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem.
E tinha muito passarinho que voava do abismo para a
estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um
[25] abismo verde. Então, como estava cansada, a velha
encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.
LISPECTOR, Clarice. Viagem a Petrópolis. A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 63-71.
LISPECTOR, Clarice. Viagem a Petrópolis. A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 63-71.
Sobre o trecho transcrito e a obra de onde foi extraído, é correto afirmar:
I. Viagem a Petrópolis é um dos últimos contos escritos pela autora, no qual a protagonista Mocinha, cujo nome verdadeiro é Margarida, foge de casa dos filhos onde vivia de favores e vai para a casa de parentes, onde também é rejeitada e torna a fugir, morrendo de desgosto numa estrada, por se sentir abandonada pela família.
II. No primeiro parágrafo (l. 1-12), na apresentação de características físicas e psicológicas da personagem, a afetividade sugerida pelo diminutivo “sequinha” (l. 1) e pelo adjetivo “doce” (l. 1) revela empatia do narrador em relação à personagem, cuja saga é apresentada metaforicamente através das características de seu vestido, como “velho documento de sua vida.” (l. 4).
III. No terceiro parágrafo (l. 14-18), na fala de Arnaldo, a entonação é agressiva e emblemática da rejeição e exclusão da personagem, uma pessoa idosa que é tratada como estorvo. Estabelece-se, aí, um contraste, entre o discurso de poder e de opressão que se volta contra Mocinha e sua atitude de submissão e silenciamento evidenciada ao longo de todo o conto.
IV. A expressão “em lembrança do berço” (l. 7) é uma referencia ao fato de que, no conto, a personagem Mocinha frequentemente se refugiava nas memórias agradáveis do tempo da infância e da juventude, como forma de fugir da realidade e, já no final da vida, em seu delírio de morte, pensa poder voltar a viver naquele tempo, para superar os traumas vividos na idade adulta e na velhice.
V. No último parágrafo, céu estrada e tronco de árvore são os elementos da paisagem que, finalmente, acolhem a personagem em seus últimos momentos. Sua morte se dá do mesmo modo em que viveu: anônima, resignada, sem vínculos afetivos, em condições de desamparo e solidão, embora pareça desconhecer as condições subumanas em que viveu e a forma como foi tratada.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a