Valéria (16 anos) aluna da Escola Manoel de Souza — Manari — PE.
— Eu poderia ser uma adolescente normal, se não tivesse uma família formada por 11 pessoas. Eu deveria ter sido uma criança normal, se não fosse as responsabilidades que eu cumpria. Eu deveria gostar do que faço, se não fosse obrigada a fazer. Eu deveria frequentar ambiente de lazer, se não tivesse que trabalhar, eu deveria reclamar quando dizem algo que eu não gosto, se não tivesse inspiração para descrever cada situação. Eu poderia reivindicar quando sou julgada injustamente, mas calo e a humildade prevalece. Eu deveria ter uma péssima impressão da vida, se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver. [...]
Interlocutor
— Você tava falando o que é que acontece na escola, às vezes contigo.
Valéria
— Não, às vezes, as professoras mandam eu fazer redação. Esse tipo de coisa. E eu faço, só que na maioria das vezes eles não consideram porque acham que não foi da minha autoria, não fui eu que fiz. Não, não dão nota boa. Porque eles acham que eu peguei por algum lugar. Peguei por algum autor, por alguma coisa parecida.Mas eles nunca acreditam que fui eu que fiz.
Professora Celsa (Colégio Estadual Parque Piratininga II — Itaquaquecetuba-SP)
— Piratininga é a periferia da periferia. E é difícil você propor uma coisa. Vamos ao cinema, vamos ao teatro. Por quê? Porque não tem dinheiro.[...]
Eu falto porque...por cansaço. Eu acho que ser professor é tá envolvido mesmo com a profissão, com eles, com os alunos e tal é uma carga física e mental muito grande. É mais do que o ser humano pode suportar.[...] Às vezes você entra numa sala de aula e você é mal recebido, porque o professor ainda é visto pelos alunos como o inimigo, né, então existe um abismo muito grande ainda entre professor e aluno, professor e diretor. A impressão que eu tenho é que ninguém se entende, né, a falta acontece por isso. Às vezes, é, puxa vida, você tá lá, você estudou e tal, você entra numa sala de aula e o cara manda você tomar naquele lugar etc, então é complicado lidar com essa situação. Sabe, papel de professor na sociedade, ele é muito importante, só que ninguém dá essa importância. Então, quando você abandona, o profissional, ele tende a quê? A quê? A deixar pra lá, sabe, eu acho que o professor, ele perdeu a dignidade. Na verdade, a gente não tem dignidade pra trabalhar. Você tem que aceitar muitas coisas dentro da sala de aula. E isso vai deixando você com o espírito assim cada vez mais pobre. O Estado, ele deixa tudo muito... jogado, sabe? Não tem ninguém ali pra falar: olha, mas você tá dando essa aula, e tal, e como é que tá sendo? Maquia-se muito as coisas, sabe? Então, de repente, ah! não vou dar nota vermelha por quê? Porque eu vou ter de fazer um documento falando porque que eu dei a nota vermelha pro indivíduo. Então pra não ter esse trabalho, ah! põe uma nota azul lá, passa logo o infeliz! Tá todo mundo cansado de ouvir quais são os problemas da educação, mas ninguém faz nada.
PRO DIA NASCER FELIZ. Direção: João Jardim. Produção: Flávio R. Tambelhin e João Jardim. Intérpretes: não divulgado. Roteiro: João Jardim. Música: Dado Vila-Lobos. Brasil, 2006. 1 DVD (88 min), Produzido por Ravina Films/Fogo Azul Filmes.
— Eu poderia ser uma adolescente normal, se não tivesse uma família formada por 11 pessoas. Eu deveria ter sido uma criança normal, se não fosse as responsabilidades que eu cumpria. Eu deveria gostar do que faço, se não fosse obrigada a fazer. Eu deveria frequentar ambiente de lazer, se não tivesse que trabalhar, eu deveria reclamar quando dizem algo que eu não gosto, se não tivesse inspiração para descrever cada situação. Eu poderia reivindicar quando sou julgada injustamente, mas calo e a humildade prevalece. Eu deveria ter uma péssima impressão da vida, se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver. [...]
Interlocutor
— Você tava falando o que é que acontece na escola, às vezes contigo.
Valéria
— Não, às vezes, as professoras mandam eu fazer redação. Esse tipo de coisa. E eu faço, só que na maioria das vezes eles não consideram porque acham que não foi da minha autoria, não fui eu que fiz. Não, não dão nota boa. Porque eles acham que eu peguei por algum lugar. Peguei por algum autor, por alguma coisa parecida.Mas eles nunca acreditam que fui eu que fiz.
Professora Celsa (Colégio Estadual Parque Piratininga II — Itaquaquecetuba-SP)
— Piratininga é a periferia da periferia. E é difícil você propor uma coisa. Vamos ao cinema, vamos ao teatro. Por quê? Porque não tem dinheiro.[...]
Eu falto porque...por cansaço. Eu acho que ser professor é tá envolvido mesmo com a profissão, com eles, com os alunos e tal é uma carga física e mental muito grande. É mais do que o ser humano pode suportar.[...] Às vezes você entra numa sala de aula e você é mal recebido, porque o professor ainda é visto pelos alunos como o inimigo, né, então existe um abismo muito grande ainda entre professor e aluno, professor e diretor. A impressão que eu tenho é que ninguém se entende, né, a falta acontece por isso. Às vezes, é, puxa vida, você tá lá, você estudou e tal, você entra numa sala de aula e o cara manda você tomar naquele lugar etc, então é complicado lidar com essa situação. Sabe, papel de professor na sociedade, ele é muito importante, só que ninguém dá essa importância. Então, quando você abandona, o profissional, ele tende a quê? A quê? A deixar pra lá, sabe, eu acho que o professor, ele perdeu a dignidade. Na verdade, a gente não tem dignidade pra trabalhar. Você tem que aceitar muitas coisas dentro da sala de aula. E isso vai deixando você com o espírito assim cada vez mais pobre. O Estado, ele deixa tudo muito... jogado, sabe? Não tem ninguém ali pra falar: olha, mas você tá dando essa aula, e tal, e como é que tá sendo? Maquia-se muito as coisas, sabe? Então, de repente, ah! não vou dar nota vermelha por quê? Porque eu vou ter de fazer um documento falando porque que eu dei a nota vermelha pro indivíduo. Então pra não ter esse trabalho, ah! põe uma nota azul lá, passa logo o infeliz! Tá todo mundo cansado de ouvir quais são os problemas da educação, mas ninguém faz nada.
PRO DIA NASCER FELIZ. Direção: João Jardim. Produção: Flávio R. Tambelhin e João Jardim. Intérpretes: não divulgado. Roteiro: João Jardim. Música: Dado Vila-Lobos. Brasil, 2006. 1 DVD (88 min), Produzido por Ravina Films/Fogo Azul Filmes.
— Você tava falando o que é que acontece na escola, às vezes contigo.
Valéria
— Não, às vezes, as professoras mandam eu fazer redação. Esse tipo de coisa. E eu faço, só que na maioria das vezes eles não consideram porque acham que não foi da minha autoria, não fui eu que fiz. Não, não dão nota boa. Porque eles acham que eu peguei por algum lugar. Peguei por algum autor, por alguma coisa parecida.Mas eles nunca acreditam que fui eu que fiz.
Professora Celsa (Colégio Estadual Parque Piratininga II — Itaquaquecetuba-SP)
— Piratininga é a periferia da periferia. E é difícil você propor uma coisa. Vamos ao cinema, vamos ao teatro. Por quê? Porque não tem dinheiro.[...]
Eu falto porque...por cansaço. Eu acho que ser professor é tá envolvido mesmo com a profissão, com eles, com os alunos e tal é uma carga física e mental muito grande. É mais do que o ser humano pode suportar.[...] Às vezes você entra numa sala de aula e você é mal recebido, porque o professor ainda é visto pelos alunos como o inimigo, né, então existe um abismo muito grande ainda entre professor e aluno, professor e diretor. A impressão que eu tenho é que ninguém se entende, né, a falta acontece por isso. Às vezes, é, puxa vida, você tá lá, você estudou e tal, você entra numa sala de aula e o cara manda você tomar naquele lugar etc, então é complicado lidar com essa situação. Sabe, papel de professor na sociedade, ele é muito importante, só que ninguém dá essa importância. Então, quando você abandona, o profissional, ele tende a quê? A quê? A deixar pra lá, sabe, eu acho que o professor, ele perdeu a dignidade. Na verdade, a gente não tem dignidade pra trabalhar. Você tem que aceitar muitas coisas dentro da sala de aula. E isso vai deixando você com o espírito assim cada vez mais pobre. O Estado, ele deixa tudo muito... jogado, sabe? Não tem ninguém ali pra falar: olha, mas você tá dando essa aula, e tal, e como é que tá sendo? Maquia-se muito as coisas, sabe? Então, de repente, ah! não vou dar nota vermelha por quê? Porque eu vou ter de fazer um documento falando porque que eu dei a nota vermelha pro indivíduo. Então pra não ter esse trabalho, ah! põe uma nota azul lá, passa logo o infeliz! Tá todo mundo cansado de ouvir quais são os problemas da educação, mas ninguém faz nada.
PRO DIA NASCER FELIZ. Direção: João Jardim. Produção: Flávio R. Tambelhin e João Jardim. Intérpretes: não divulgado. Roteiro: João Jardim. Música: Dado Vila-Lobos. Brasil, 2006. 1 DVD (88 min), Produzido por Ravina Films/Fogo Azul Filmes.
— Piratininga é a periferia da periferia. E é difícil você propor uma coisa. Vamos ao cinema, vamos ao teatro. Por quê? Porque não tem dinheiro.[...]
Considerando-se o documentário “Pro dia nascer feliz”, as falas de Valéria (aluna) e de Celsa (professora), contextualizadas no filme, evidenciam, respectivamente,