Voltar às favelas
Antigamente, dizia-se que da discussão nasce a luz. Provavelmente isso ainda acontece, desde que não seja uma daquelas discussões de bar, com as caras de ambos os debatedores indevidamente cheias. Mas o que interessa é uma frase parecida — e bonita — que o pessoal do jornal inventou outro dia: “E da paz fez-se a luz.” Foi uma maneira poética (quem disse que não há mais poetas nas redações?) de informar que nas favelas pacificadas do Rio a Light - que, pelo visto e sabido, antes não tinha condições de trabalhar em paz e sossego nas comunidades — agora pode fazê-lo. E a empresa parece ter descoberto que é bom negócio trabalhar nelas. Com a queda da ditadura dos traficantes, foi possível acabar quase inteiramente com a ilegalidade dos “gatos”. O que, note-se, é um bom negócio para todas as concessionárias: nas favelas pacificadas, o número dos consumidores com as contas em dia é proporcionalmente maior do que a média em toda a área de ação da empresa no estado. (Um amigo meu diz que rico não gosta de pagar contas; não sei se é verdade: ele é meio comunista.)
De qualquer maneira, ficamos com a impressão de que o favelado paga suas contas com mais presteza e fidelidade do que outros consumidores — como muita gente boa sempre desconfiou. Os números não costumam mentir: em três favelas pacificadas (Dona Marta, Chapéu Mangueira e Batam), 97% dos consumidores pagam suas contas em dia. No conjunto da rede de baixa tensão da Light, o índice é de 94,34%.
Note-se também que, durante a longa ditadura dos traficantes, o fornecimento de luz era errático: os funcionários da Light tinham, obviamente, medo de entrar nas favelas. Esse problema desapareceu — mas é preciso registrar, como disse o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, que o medo ainda existe no caso de outras empresas e órgãos públicos.
O que é bastante triste. Será possível que esse pessoal não lê jornal nem vê televisão? Alguém ainda não percebeu que os mais importantes quartéis-generais da bandidagem no Rio — Deodoro e Rocinha — foram devolvidos à população, depois de décadas da ditadura dos traficantes?
Os favelados sabem que os bandidos eram seus inimigos. Nas comunidades pacificadas, esses inimigos desapareceram. Está na hora, como disse o secretário Beltrame, de empresas prestadoras de serviços essenciais, inclusive da prefeitura — a Light é exceção e parece que tem trabalhado direitinho — , aparecerem nas favelas. Para provarem que, ao contrário dos traficantes, são amigas de quem mora nelas.
Luiz Garcia
O Globo, Opinião, dia 06 de janeiro de 2012.
Em Provavelmente isso ainda acontece, desde que não seja uma daquelas discussões de bar, os termos sublinhados poderiam ser substituídos, respectivamente, sem alterar o sentido, apenas por