Na canção "Mulheres de Atenas", do músico Chico Buarque, retrata-se o cotidiano subserviente da mulher ateniense em uma sociedade estruturada pelo patriarcado, de modo que a sua existência é resumida à procriação e ao cuidado do lar. Analogamente à música aludida, evidencia-se que tais papéis de gênero continuam presentes no Brasil. Assim, mimetiza-se a invisibilização do ofício de cuidado realizado pela mulher em decorrência da lógica patriarcal e da informalização do trabalho de cuidado.
Diante do exposto, observa-se que as construções de gênero são perpetuadas pelo patriarcado. À vista disso, em consonância com Simone de Beauvoir, escritora francesa, não se nasce mulher, mas se torna uma. Sob essa perspectiva, reforça-se que as relações interpessoais são estruturadas nas funções socioculturais atribuídas aos gêneros masculino, o qual exerce atividades consideradas relevantes para a população, e feminino, o qual, em sua maioria, executa trabalhos imprescindíveis para a manutenção social, mas que são invisibilizados pela lógica patriarcal. Dessa forma, os ofícios de cuidado realizados por mulheres são pouco valorizados e, consequentemente, precarizados.
Em paralelo a isso, nota-se uma relação direta entre informalização do trabalho de cuidado feito por mulheres e sua precarização. Sob esse viés, durante o mandato presidencial do Getúlio Vargas, foi criada a Carteira de Trabalho, documento o qual formalizou e, como consequência, assegurou dignidade às relações trabalhistas. Isso posto, evidencia-se que o não reconhecimento do ato de cuidar de pessoas e do lar como um trabalho que requer esforço, tempo e dedicação vulnerabiliza milhares de mulheres, uma vez que não as garantem suporte financeiro, bem como não contabilizam para as suas aposentadorias.
Depreende-se, portanto, que o patriarcado e a informalização do trabalho de cuidado são problemáticas que carecem de medidas efetivas para serem mitigadas. Nesse sentido, para que haja o enfrentamento constante de tais desafios, é elementar que o Poder Legislativo, aliado ao Ministério do Trabalho, formalize o ofício doméstico exercido por incontáveis brasileiras, por meio de uma lei, a qual reconheça na Carteira de Trabalho tal exercício. Dessa forma, serão assegurados às mulheres os direitos trabalhistas e a redução da precarização do ofício. Ademais, urge que o Ministério das Comunicações promova campanhas, através das redes sociais, a qual fomente o fim da lógica patriarcal. Somente assim, a realidade brasileira será dessemelhante à ateniense.