De acordo com a filósofa brasileira Djamila Ribeiro, para que um problema seja solucionado, é fundamental torná-la público. Entretanto, no Brasil, a valorização de herança africana nunca foi uma premissa coletiva expressiva, visto que o legado colonial ainda invisibiliza o papel do povo negro, marginalizando seus feitos e contribuições. Sob tal perspectiva, o desafio de valorizar a herança africana no Brasil reside tanto na exclusão sistêmica quanto na influência midiática.
Primeiramente, destaca-se a exclusão sistêmica como obstáculo à valorização do legado africano. Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, as estruturas sociais mantêm e reproduzem desigualdades de forma velada, naturalizando privilégios e opressões. No Brasil, isso se expressa por meio do racismo estrutural, que limita o acesso da população negra a posições de poder e prestígio social, como cargos políticos, acadêmicos e midiáticos, restringindo sua capacidade de influenciar narrativas culturais. Como consequência, a herança africana permanece à margem do reconhecimento institucional, enquanto símbolos eurocêntricos seguem sendo exaltados como universais. Assim, o apagamento simbólico do legado africano perpetua desigualdades históricas e impede avanços significativos em termos de justiça social.
Em segundo plano, os meios de comunicação também são agentes na construção da invisibilidade do legado africano. Durante boa parte da história do país, as práticas culturais afro-brasileiras foram criminalizadas, sendo muitas vezes retratadas de forma pejorativa. Um exemplo claro disso é o samba, gênero musical com raízes africanas que foi perseguido e censurado pela mídia até ganhar aceitação no governo Vargas, somente após ser apropriado por setores elitizados da sociedade. Tal fato evidencia como a validação cultural só ocorreu quando mediada por grupos hegemônicos e transmitida sob a ótica da grande mídia, o que distorce seu significado original e limita sua representatividade popular. Dessa forma, é evidente a responsabilidade das plataformas midiáticas na promoção de uma visão plural e justa das contribuições africanas à formação do país.