Na obra “O Alienista”, o autor Machado de Assis aborda a questão das doenças mentais, já no período do Realismo literário - século XIX, - por meio do personagem Doutor Bacamarte. No enredo, nota-se o empenho do protagonista de aprisionar os diagnosticados na “Casa Verde”, local que se assemelha aos manicômios, na tentativa de isolá-los da sociedade. Apesar do ínterim entre a publicação do livro e o contexto hodierno, percebe-se que as doenças de cunho psíquico ainda são estigmatizadas no Brasil. Nesse viés, torna-se crucial analisar as causas desse revés, dentre as quais se destacam a omissão do Estado e o preconceito da sociedade.
De início, é imperioso notar que a indiligência do governo potencializa os estigmas associados às doenças mentais. Depreende-se que, na obra “Os Bruzundangas”, o pré-modernista Lima Barreto já expunha que a ausência das garantias constitucionais estava no âmago das problemáticas daquela nação. Sob essa ótica, sua tentativa de criar um país fictício com os mesmos entraves do Brasil é ratificada, sobretudo no que tange ao precário engajamento estatal para com as doenças mentais, uma vez que a saúde é um direito previsto pela Constituição Cidadã e tal cláusula não é garantida de forma efetiva. Isso ocorre devido ao caráter esporádico de campanhas de conscientização a respeito da necessidade do diagnóstico e do tratamento das enfermidades psíquicas, que se apresentam restritas aos meses de destaque ao combate da depressão e do suicídio, por exemplo. Por conseguinte, parte substancial dos brasileiros ainda percebe as doenças mentais como estigma, o que contribui para a ínfima busca por tratamento. Destarte, fica nítido que a negligência do Estado dificulta a atenuação dos problemas relativos às enfermidades psíquicas.
Ademais, é justo perceber que o preconceito da sociedade contribui para o estigma associado às doenças mentais. De acordo com a autora Daniela Arbex, em sua obra “Holocausto Brasileiro”, o tratamento das pessoas com doença mental no hospital "Colônia" era semelhante ao massacre dos campos de concentração do regime nazista, principalmente pela perda da dignidade humana. Nesse sentido, é possível inferir que, mesmo após o fechamento desse centro de saúde, o caráter documental do livro ainda ilustra o modo como a sociedade brasileira lida com a população vítima das enfermidades psíquicas, visto que a marginalização dos doentes mentais ainda é uma tônica no país. A gênese desse quadro encontra-se no modo errôneo com que boa parte dos cidadãos lidam com tais patologias, vide sua descaracterização como verdadeiras e sérias doenças. Em decorrência disso, muitas pessoas marginalizam os diagnosticados com doenças como o transtorno bipolar e a ansiedade, tratando-os de forma desrespeitosa. Dessa forma, a mudança do comportamento social é vital para atenuar o legado de massacre dos doentes mentais que ocorrera no hospital "Colônia".
Torna-se evidente, portanto, que o estigma associado às enfermidades mentais ocorre devido à omissão do governo e ao preconceito da sociedade. Para contornar esse problema, caberá à União o estímulo ao tratamento, por meio do maior repasse de verbas aos postos de saúde, as quais serão destinadas para a realização de campanhas, em todo o decorrer dos anos, que abordem como tema principal a necessidade do combate às doenças mentais. Essa medida tem o afã de tornar efetivo o tratamento das doenças psíquicas. Outrossim, é dever do Ministério da Educação coibir o preconceito, por intermédio do aprimoramento da Lei de Diretrizes e Bases, que incluirá a disciplina "Cidadania" na grade escolar, com o fito de formar jovens engajados com a causa e, com isso, banir a marginalização. Assim, finalmente, criar-se-á um Brasil livre das heranças do Realismo no tratamento para com a sua população doente.