O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao discutir acerca da invisibilidade de alguns grupos na sociedade, equivale tal apagamento a uma morte social, analogia essa que expressa a importância de se reconhecer determinados coletivos para que os indivíduos a eles pertencentes tenham garantida a sua plena cidadania. Nesse contexto, ao se observar o que ocorre à herança africana no Brasil, percebe-se a existência de desafios para a sua devida valorização, os quais excluem, dessa maneira, a relevância dessa cultura - e, por consequência, a de seus praticantes- para a identidade do país. Por conta disso, é necessário analisar duas das suas causas:o racismo estrutural e a falha escolar.
Nesse cenário de apagamento da herança africana, evidencia-se o racismo estrutural como um dos seus causadores. A esse respeito, a filósofa brasileira Marilena Chauí aponta que a sociedade tende a transformar diferenças em desigualdades, ou seja, estabelecido um padrão de conduta, aqueles que dele divergem são inferiorizados, sendo violentados, antes de tudo, simbolicamente. Devido a essa lógica de hierarquia, o Brasil - país de origem colonial escravocrata - estabeleceu o modelo cultural europeu - branco e cristão - como referência a ser seguida, censurando, por exemplo, as manifestações religiosas próprias dos negros escravizados, os quais tiveram que preservar a sua fé e os seus ritos em um processo de sincretismo religioso, por medo da opressão. Por conseguinte a esse tratamento historicamente racista, persistem, hodiernamente, adjetivações negativas atribuídas às religiões de matrizes africanas, preconceito esse que inibe muitos herdeiros dessa cultura de a exercerem publicamente, temendo represálias, o que se caracteriza como uma agressão simbólica. Dessa forma, é pertinente combater os estigmas associados às tradições africanas.
Além disso, a abordagem ainda eurocentrada das escolas dificulta o reconhecimento das heranças culturais oriundos da África. Sob esse vies, apesar de a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propor a discussão a respeito do legado sociocultural negro no país, as instituições de ensino, em sua maioria, adotam uma perspectiva que ignora as contribuições advindas do continente africano - como a influência na música, na língua e na culinária - e limitam o debate sobre o assunto às aulas que tratam da história europeia, isto é, relegam aos afrodescendentes um papel secundário na formação da memória e da identidade do nação. Consequentemente, por os alunos não terem abordagem adequada, a ideia de pertencimento da população negra ao Brasil é comprometida, uma vez que o enfoque é dado, predominantemente, à população branca. Posto isso, é necessário reconhecer e combater essa falha escolar.