A obra “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, conta as vivências das irmãs Bibiana e Belonísia, com ênfase na forte relação cultural e religiosa que estabelecem com a ancestralidade africana. Fora da ficção, apesar do enaltecimento promovido pelo autor, as heranças afrodescendentes sofrem com a desvalorização constante no Brasil. Nesse contexto, o passado colonial e a cultura eurocêntrica configuram desafios que fundamentam esse grave panorama.
Em primeira análise, convém ressaltar que a escassa valorização de tais tradições se arquiteta como expressão de contribuições históricas. De fato, a escravização de povos oriundos da África, no Brasil Colônia, constitui a base para a formação do país. Nessa conjuntura, esses indivíduos foram vítimas de violências físicas e simbólicas que, de forma cruel, visavam à docilização e ao apagamento da identidade desses grupos. Desse modo, a marginalização da população negra nesse período, promovida pela elite branca, implicou, consequentemente, a invisibilização dessa minoria até a atualidade, visto que o Estado falhou na inserção social e na valorização do legado africano após a abolição da escravidão.
Ademais, uma segunda análise acerca da problemática revela a influência da hipervalorização da cultura branca. Sob a perspectiva de George Orwell, a mídia é capaz de mover a massa - inclusive no que tange às preferências culturais. Nessa lógica, a hegemonia europeia - de caráter secular - nas produções artísticas brasileiras, somada à inferiorização de elementos de matriz africana, culminou na instituição de uma cosmovisão popular voltada para a descredibilização das heranças invisibilizadas. Com efeito, a exposição midiática insuficiente culmina na subvalorização dessas tradições, as quais sofrem, por exemplo, com tentativas de criminalização, como ocorreu com o samba na Primeira República e com o funk em 2018. Logo, essa realidade degradante precisa ser desconstruída.