Na obra autobiográfica “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, a autora Carolina Maria de Jesus desvela aspectos de sua dificultosa vivência no exercício de papel sociodoméstico enquanto uma mãe subalterna. Nesse sentido, ela, ao longo da trama, assume uma posição identitária atravessada por questões de gênero e da própria sociedade corrente, as quais fomentam sensos latentes de discriminação. Seguindo tal recorte literário, é fato que a história pessoal de Carolina reflete as mesmas dimensões enfrentadas por muitas mulheres no Brasil atual, contornada por interfaces invisibilizadoras de suas práticas cotidianas quanto ao trabalho de cuidadora. Logo, para se enfrentar esse cenário, cabe a análise de seus principais desafios, sendo os quais a lógica patriarcal e o apagamento curricular.
De início, vale apontar a mentalidade machista arraigada no tecido civil do país na acentuação dessa problemática. Acerca disso, a filósofa Simone de Beauvoir, em seu livro “O Segundo Sexo”, aponta que o imagético da figura feminina foi cunhado, historicamente, pelo ideal segregador do sexismo, de forma a dimensionar privilégios de conduta aos homens, à medida que direciona ações restritivas às mulheres, a citar a provação de lar. Por essa ótica, atesta-se o juízo da retórica, ainda, na contemporaneidade nacional, tendo em vista que a maior parte da comunidade feminina está inserida, desde a infância, no contexto comportamental alicerçado sob as lentes retrógradas do machismo, modulando uma lógica cuja mulheres – apenas – tornam-se encarregadas dos afazeres domésticos, como o cuidado à criança ou à pessoa idosa. Como consequência de tal quadro assimétrico, o contingente feminino, em geral, sofre a pressão do cuidado afetivo convencionado socialmente, impondo a elas agressivas facetas físico- psicológicas, a exemplo da depressão e da ansiedade, derivadas de um empenho cotidiano traduzido como uma “obrigação natural”. Assim, evidencia-se que o ímpeto patriarcal, cada vez mais, limita a abstração feminina ao contínuo labor como ação enraizada.
Além disso, é importante mencionar a crônica invisibilização dos currículos escolares brasileiros localizada no âmago desta questão. Sob esse viés, a teórica feminista bell hooks, na defesa de uma pedagogia culturalmente transgressora, sugere que os intuitos acadêmicos incubem-se de formular vertentes pluralizadas do ensino, incorporando à realidade dos discentes saberes capazes de desmantelar antigas estruturas de exclusão. No entanto, a visão da pensadora colide com uma outra conjuntura presente nas escolas do país: a estruturação de uma grade disciplinar alheia à valorização da independência dos sujeitos, com destaque às meninas estudantes. Isso ocorre, em grande medida, devido à cristalização das correntes opressoras, como o machismo basilar, nas competências pedagógicas nacionais, fato o qual, por exemplo, toma das alunas o acesso educacional às vertentes libertadoras, manutencionando um modelo de educação tradicionalizado. Por conseguinte, o trabalho de cuidado feminino – enquanto forma de legado marginalizador – persiste em um cenário no qual a equidade mostra-se pouco estimulada desde a sala de aula. Nota-se, então que a desatualização curricular, sem dúvidas, embasa esse perfil desproporcional da gestão familiar.
Portanto, é inegável que o cuidado realizado pela mulher no Brasil enfrenta circunstâncias de invisibilidade, pressupondo intervenções coletivas para a sua reformulação. Com isso em mente, o Ministério das Mulheres – proeminente instância federal afirmadora dos direitos femininos – deve promover uma ação perene de combate ao imperativo patriarcal em toda jurisdição do país. Nessa proposta, serão suscitados projetos de visibilização ao esforço das mulheres, mediante um maior repasse de verbas às administrações municipais, as quais fornecerão ajuda financeira, como auxílios justificados pelo trabalho doméstico, e também psicológica, a partir de psicólogos profissionalizados na ampla atuação feminina, com a finalidade de estabelecer diretrizes cruciais para a valorização feminina, de modo a contornar o machismo totalmente operante. Somado a isso, o Ministério da Educação, por intermédio da reformulação da Base Nacional Comum Curricular, necessita abranger essa situacionalidade díspar em sala de aula, na disciplina de Sociologia, o que fundamentará, da mesma forma, discussões transgressoras ao patriarcado a fim de, com o tempo, reverter essa moeda instrutiva. Feito isso, os desafios do gênero encarados por Carolina serão, por certo, desvencilhados da realidade brasileira.