De acordo com Cláudio Mazzili, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vivemos em uma sociedade classista e hierarquizada em função do capital, na qual se instaura a lógica da discriminação e não a desejada inclusão social. Esse pensamento permite estabelecer um paralelo com a precária democratização do acesso ao cinema no Brasil, uma vez que essa importante fonte cultural está, majoritariamente, concentrada em zonas de alto poder aquisitivo. Entretanto, se usada de forma a auxiliar na democratização cultural — principalmente nas zonas periféricas —, o cinema pode ser uma importante ferramenta no avanço educacional do país.
Deve-se pontuar, de início, que o Brasil é, infelizmente, um país estratificado e desigual. Desde a sua gênese (considerando-se a perspectiva ibérica), a América foi pensada como uma colônia de exploração, na qual a educação não só era desestimulada, como era proibida. É dentro desse contexto exploratório que se estruturou a sociedade brasileira, a qual tem — como uma das consequências “modernas” — a gentrificação, isto é, o afastamento dos indivíduos com baixo poder aquisitivo dos grandes centros urbanos, o que os deixa ainda mais distantes da infraestrutura social destina à educação, à cultura e ao entretenimento educativo. Ora, percebe-se, portanto, que essas áreas privilegiadas com acesso à cultura — como o cinema — são de exclusividade daqueles que têm altas rendas. Em contrapartida, nas periferias, nas zonas rurais e nas áreas menos valorizadas a democratização do acesso ao cinema é praticamente nula, o que agrava a situação de vulnerabilidade social desses cidadãos.
Contudo, a democratização do acesso ao cinema — se feita de modo a beneficiar os menos favorecidos, os quais representam a maior parte da população — é uma importante ferramenta na desconstrução das amarras coloniais, e, posteriormente, em uma reformulação educacional que vise ao acesso democrático à cultura para todo cidadão brasileiro. Tomemos como exemplo uma situação hipotética na qual um sujeito que reside na periferia tem, todas as noites, a possibilidade de interagir com a comunidade e de adquirir conhecimento por meio de um cinema ao ar livre, o qual traz como conteúdo filmes, documentários e palestras. Torna-se evidente que esse indivíduo, além de ter acesso à cultura, terá uma forma de entretenimento que o beneficiará tanto individualmente quanto socialmente, visto que o conhecimento será útil em todas as áreas da sua vida.