O livro "Emma", da escritora inglesa Jane Austen, narra a história de uma jovem do século XIX que vive um conflito interno no qual o desejo de se casar com o homem que ama se opõe ao dever de cuidar de seu pai idoso integralmente. Ao sair do mundo literário e analisar a atual conjuntura brasileira, torna-se perceptível que situações como essa, em que uma mulher precisa abdicar de seus desejos individuais para se dedicar à família e ao lar são extremamente frequentes. Contudo, apesar de sua importância, esse trabalho de cuidado pelas mulheres é extremamente desvalorizado e enfrentar essa realidade se tornou um desafio tanto por conta do machismo estrutural enraizado na sociedade quanto por conta dos estigmas que o cercam.
Primeiramente, cabe destacar que o machismo no Brasil está presente desde o Período Colonial, que tinha como característica marcante o patriarcalismo. Dessa forma, é possível afirmar que a sociedade brasileira foi construída em um cenário no qual os homens comandavam e as mulheres eram responsáveis por cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos. Assim, a parcela feminina da população foi silenciada por muitos anos, tendo que lutar para ter os mesmos direitos que os homens. Com isso, mesmo tendo conquistado vários benefícios ao longo das décadas, elas ainda não são ouvidas por grande parte dos indivíduos, de modo que o trabalho de cuidado que a maioria realiza ainda é invisibilizado perante a sociedade, sendo extremamente mal remunerado e desvalorizado.
Ademais, outro fator que torna a valorização dos cuidados realizados pelas mulheres um desafio está relacionado aos estigmas provenientes do machismo. Isso porque, tendo em vista que o país tem, desde sua origem, estrutura patriarcal, certos preconceitos sobre o papel feminino já foram normalizados. Um exemplo disso é a ideia de que o papel feminino é somente o de cuidadora, tanto do lar quanto da família, de forma que negar esse trabalho é ser irresponsável e fugir de suas obrigações. Por esse motivo, a invisibilidade desse ofício é apenas uma consequência desse estigma, pois uma mulher dificilmente será valorizada por fazer algo que, pelo senso comum, é apenas seu dever.