Na obra “O alienista”, de Machado de Assis, a narrativa introduz a temática de saúde mental e dos transtornos psíquicos, abordando as dificuldades e os preconceitos sofridos por pessoas com doenças psiquiátricas. Embora seja uma obra ficcional, a produção literária possui, infelizmente, verossimilhança notável, uma vez que apresenta um tema de elevada relevância e de apregoada presença na sociedade brasileira: o estigma associado às doenças mentais. Diante desse cenário, é imperioso ressaltar fatores que contribuem para a problemática, dando destaque à negligência estatal e ao papel das redes sociais.
Primeiramente, cabe destacar que a saúde é um direito assegurado constitucionalmente a todos os cidadãos brasileiros. Nesse viés, é pertinente trazer o discurso do escritor Gilberto Dimenstein, de seu livro “Cidadão de papel”, no qual ele conceitua os cidadãos de papel—indivíduos cujos direitos constitucionais não são garantidos na prática. Dessa forma, depreende-se que os tratamentos precários oferecidos pelo Estado ferem os direitos da parcela da população que necessita de atendimento psiquiátrico adequado, deixando-a na condição inaceitável descrita por Dimenstein.
Outrossim, é válido explicitar o papel das redes sociais na intensificação do estigma relativo a distúrbios mentais. Nesse sentido, o documentário “O dilema das redes” revela a maldade da utilização dessas redes sociais, visto que ele retrata a dicotomia entre a exposição exagerada da vida de usuários e a restrição do conteúdo compartilhado, que mostra apenas os melhores aspectos da vida deles. Consecutivamente, tal cenário fomenta os indivíduos a omitirem seus problemas, silenciando problemas como as doenças mentais. Desse modo, a falta de exposição e discussão da temática resulta no agravamento do preconceito contra doentes psíquicos.
Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar a problemática. Para tanto, urge que, a fim de garantir um serviço de saúde de qualidade a todos os cidadãos, o Ministério da Saúde, por meio do direcionamento de verbas governamentais, crie centros especializados no tratamento de doentes mentais, de modo a incentivar as pessoas a buscarem ajuda médica e democratizar o acesso à saude. Ademais, o Ministério da Educação deve proporcionar rodas de conversa nas escolas por intermédio de um programa nacional de combate à discriminação da saúde mental, evitando seu silenciamento e motivando maior conhecimento acerca do assunto. Assim, a realidade brasileira poderá ser diferente do contexto apresentado em “O alienista”.