O filme “Que horas ela volta?”, produzido pela “Globo”, retrata a história de Val, uma mulher que durante toda a sua vida se dedicou a cuidar da família e da casa de seus empregadores. Durante a trama, é revelada a maneira hostil como a personagem é tratada, deixando de receber o pagamento pelo seu trabalho e a valorização pelo seu esforço. Fora do espectro ficcional, a valorização do trabalho de cuidado realizado pela mulher ainda não ocorre de forma eficaz, contribuindo para que a situação permaneça na invisibilidade. Sendo assim, cabe analisar o óbice com foco na desvalorização histórica desse tipo de atividade e na omissão governamental.
Diante desse cenário, é peremptório apontar a herança histórica como causa principal da invisibilidade feminina no que se refere ao trabalho de cuidado. Nesse viés, a obra “Casa Grande e Senzala”, escrita por Gilberto Freire, aborda o Período Colonial brasileiro, no qual as escravas se dedicavam, majoritariamente, à função de cuidar da família dos senhores de engenho, sem receber nenhum tipo de pagamento por essa atividade. Nesse sentido, é lamentável evidenciar que essa estrutura social arcaica ainda perdura no Brasil pós-moderno, visto que, segundo dados do IBGE, a maior parte dos brasileiros que se dedicam ao trabalho de cuidado são mulheres que, ou não recebem pagamento por isso, ou são extremamente mal remuneradas. Desse modo, o fator histórico de construção da sociedade brasileira representa um legado que tem como consequência a invisibilização da figura feminina, sobretudo aquela que se dedica ao cuidado, dificultando a resolução da problemática.
Somado a isso, é fulcral denunciar a postura inerte do Estado brasileiro, que contribui para a manutenção dessa desvalorização na sociedade. Nesse contexto, o filósofo inglês John Locke, participante do movimento contratualista, defende que o governo deve cumprir o “Contrato Social”, ou seja, deve garantir a proteção e a dignidade de toda a sociedade. Contudo, ao estudar a atual conjuntura nacional, evidencia-se uma divergência entre o modelo de governo proposto pelo teórico e a atuação do poder público no país, uma vez que essa esfera de poder não elabora medidas eficientes de apoio às mulheres que trabalham com o cuidado e não destina recursos para que essa parcela social exerça seu papel de forma digna. Assim, é imperioso que as autoridades se mobilizem para mitigar essa mazela social.
Ante o exposto, fica evidente a necessidade de estratégias para atenuar a problemática. Para tanto, urge que o Ministério do Trabalho - pasta do Executivo - elabore, por meio de um projeto de lei, um programa de suporte destinado às mulheres que trabalham com os afazeres domésticos. Esse programa deve destinar verbas, provenientes do Tribunal de Contas da União, à essa parcela populacional, para que sua função seja exercida com a dignidade e o reconhecimento necessários. Espera-se, com essa medida, a tirada do trabalho de cuidado feminino da invisibilidade e, portanto, afastar a figura da mulher de realidades como a do filme “Que horas ela volta?”.