Edvard Munch, pintor expressionista, na obra “O grito”, retratou a angústia, o medo e a desesperança no semblante de uma personagem rodeada por uma atmosfera de profunda desolação. Para além do quadro, no Brasil, o sentimento de milhares de indivíduos assolados por incapacitantes doenças mentais é, em muitos casos, semelhante ao ilustrado pelo artista. Nesse panorama, a compactuação da sociedade e os altos custos dos tratamentos favorecem a perpetuação do estigma na sociedade brasileira. Cabe-se, então, alcançar medidas efetivas de combate a essa triste realidade de desespero ilustrada pelo artista.
Em uma primeira análise, sob a ótica social, faz-se necessário refletir acerca da banalização do sofrimento psíquico na contemporaneidade. Isso porque, ao se desvalorizar a dor emocional, o indivíduo doente não recebe o apoio necessário do corpo social e de seus familiares, haja vista o grande estigma e a desconstrução, em suas mínimas expressões, da importância da busca pelo correto tratamento em decorrência da humilhação sofrida pelo paciente. Michel Foucault, nesse sentido, a partir do conceito de Normalização, definiu que há, na sociedade, a repetição de comportamentos sem a devida reflexão crítica dessa conduta, sendo assim, a reprodução de atitudes preconceituosas contra a população atingida por doenças mentais é subproduto do desconhecimento social da relevância do suporte coletivo para a melhoria do estado mental. Com isso, o estigma associado aos transtornos mentais favorecem a replicação de atitudes egoístas.
Ademais, em segundo plano, o elevado custo no tratamento das doenças mentais fomentam a caótica conjuntura atual do país. Essa correlação pode ser estabelecida em decorrência dos altos valores dos medicamentos e das consultas psicológicas, o que afasta a população menos favorecida do acompanhamento extremamente necessário à sua sobrevivência. Segundo o Conselho Federal de Psicologia, o valor médio da sessão de terapia é de cento e cinquenta reais por visita, isso revela o caráter excludente do acesso ao tratamento para a população mais pobre. Nesse contexto, aqueles que necessitam do auxílio psiquiátrico ficam reféns da falta de apoio governamental para arcar com os altos valores do tratamento. Dessa forma, a desigualdade estrutural do Brasil afeta os doentes.