No longa-metragem ganhador do Oscar “A invenção de Hugo Cabret”, narra-se o cotidiano de um jovem garoto órfão que, apesar de viver - sob precárias condições - em uma estação de trem parisiense, frequenta, clandestinamente, uma sala de cinema próxima ao seu lar como uma forma de afastar-se de sua infeliz realidade. Tal obra fictícia, além de expor um dos benefícios da ida a esse tipo de estabelecimento, também denuncia a desigualdade do acesso à arte cinematográfica, semelhantemente ao que ocorre no Brasil contemporâneo. Nesse âmbito, faz-se necessário analisar dois entraves acerca do óbice social apresentado: os elevados custos para a entrada em cinemas - incompatíveis com a condição financeira de camadas populares - e a falta de mobilização cidadã em prol da equidade dos direitos relacionados a essa situação.
Primordialmente, é válido pontuar a política de preços altos como um obstáculo à democratização da Sétima Arte no território nacional. Isso ocorre devido ao ineficiente quantitativo de medidas governamentais para modificar as tabelas de custos estabelecidas por empresas privadas (responsáveis pela distribuição de obras cinematográficas), promovendo um impedimento a comunidades de baixa renda no que tange ao acesso aos locais em pauta. Entretanto, atualmente, observa-se uma gradativa mudança na postura estatal em relação a esse cenário, a exemplo da criação do cinema Líbero Luxardo na cidade de Belém, desenvolvido pelo governo do estado do Pará para oferecer entretenimento (tanto nacional, quanto estrangeiro) de qualidade por preços econômicos.
Apesar desse notório progresso, ainda é imperiosa a problemática supracitada, uma vez que projetos (como o exposto) são minoritários comparadas a outras regiões do país. Ademais, deve-se explicitar que considerável parcela da sociedade não busca reverter a situação da desigualdade do acesso ao cinema no Brasil. Tal estorvo advém de uma despreocupação dos cidadãos em exigir reformulações nos setores públicos (como o Ministério da Cidadania) encarregados de garantir a possibilidade de apreciação das múltiplas formas de arte por todos, o que define esse comportamento negligente como um “eclipse de consciência”, termo - conforme o literato português José Saramago, no romance “Ensaio sobre a cegueira” - utilizado para sintetizar a ideia da falta de sensibilidade do indivíduo perante os imbróglios enfrentados pelo próximo, nesse caso, o contingente populacional desprovido da oportunidade de desfrute às produções cinematográficas. Por conseguinte, sob efeito desse fenômeno, considerável parte dos brasileiros fomenta a invisibilização do empecilho social em evidência, afastando as pessoas necessitadas das salas de projeção.