O poeta Sebastião Uchoa Leite já mencionou que o cinema era uma de suas grandes inspirações em razão das diferentes perspectivas que este pode dar sobre o mundo. Portanto, o cinema, enquanto ferramenta de reflexão, beneficia a população brasileira, mas enfrenta, lamentavelmente, desafios para a democratização de seu acesso em escala nacional. Isso se deve, por um lado, a um padrão cinematográfico que não contempla as diversidades regionais e, por outro, a uma elitização da “sétima arte”, afastando-a das periferias.
Em primeiro lugar, o Brasil reproduz, majoritariamente, filmes americanos, de padrão “hollywoodiano”, que não contemplam as expressões regionais brasileiras. Segundo o filósofo Emmanuel Lévinas, uma sociedade justa deve respeitar a alteridade de seus membros, de modo que sua exclusão é uma forma de violência. Assim, o cinema regional aparece como um símbolo da cultura local, e seu incentivo é um modo de respeitar a alteridade dessas parcelas da sociedade, incluindo-as na cultura do cinema.
Além disso, o cinema, no Brasil, tem tido alcance restrito às classes sociais privilegiadas, que possuem fácil acesso a shopping centers, onde a maioria dos cinemas se concentra, ou renda suficiente para manter serviços de streaming, como o Netflix. De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, a facilidade de acesso a obras de arte pode ser chamada de “capital cultural”, e sua acumulação é uma maneira de reproduzir a desigualdade social. Nesse sentido, levar o cinema às periferias é um passo essencial para a democratização de seu acesso no Brasil e para a distribuição do “capital cultural” entre todos.
Em conclusão, o incentivo ao cinema regional brasileiro e a difusão da “sétima arte” nas periferias são caminhos possíveis para a democratização do seu acesso no Brasil. Para isso, o Ministério da Cidadania, por meio de editais públicos, deve oferecer patrocínio à produção de filmes regionais, em especial nos interiores brasileiros, com a finalidade de difundir o cinema regional. Concomitantemente, os Governos estaduais, por meio de suas secretarias de cultura, devem criar campanhas de exibição de filmes nas periferias, atendendo às especificidades de cada estado, para difundir o acesso a esse meio artístico a todos os brasileiros.