INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir, para responder à questão.
TEXTO
Agora é crise
O Guardian sobe o tom para falar do aquecimento global
“A crise climática é nossa terceira guerra mundial. Precisa de uma resposta arrojada”, lia-se no título de uma coluna do economista norte–americano Joseph Stiglitz, publicada em junho no jornal britânico The Guardian. O artigo refletia sobre como a economia global pode se preparar para essa guerra. “Vamos pagar pelo colapso climático de um jeito ou de outro. Então faz sentido gastar dinheiro agora para reduzir as emissões [de gases do efeito estufa] em vez de pagar bem mais caro pelas consequências no futuro”, defendia o autor, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001.
No tom e na linguagem, o artigo de Stiglitz aderia às novas orientações do manual de redação do Guardian, atualizado em maio. O diário passou a recomendar a seus jornalistas e articulistas que não falem mais em “aquecimento global” ou “mudança do clima”, mas ∼ em “crise”, “emergência” ou “colapso” do clima. Para o jornal, esses termos descrevem com mais precisão as atuais ameaças ao meio ambiente. “A expressão ‘mudança do clima’ soa um tanto leve e passiva, mas o que os cientistas estão descrevendo é uma catástrofe para a humanidade”, afirmou a diretora de redação Katharine Viner no editorial que anunciou a decisão. [...]
Desde o século XIX, os cientistas sabem que o acúmulo desses gases na atmosfera pode aquecer o planeta. Tal risco é apontado na imprensa há mais de cem anos. Em julho de 1912, uma nota curta publicada no Braidwood Dispatch and Mining Journal, da Austrália, informou que os 7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas anualmente pelas usinas de carvão estavam criando um cobertor na atmosfera que esquentaria a Terra. “O efeito pode ser considerável em poucos séculos”, vaticinou o jornal. Mas a mudança do clima só ganhou grande visibilidade no final dos anos 80, quando os cientistas se deram conta de que os padrões de produção e consumo da humanidade aumentariam inevitavelmente a temperatura planetária. [...]
Alguns pesquisadores já usam a expressão “crise climática” para tratar do tema em artigos científicos, apesar de o IPCC – o painel de cientistas da Organização das Nações Unidas que se dedica ao assunto – ainda preferir o termo “mudança do clima”, mais sóbrio. A decisão do Guardian reflete a compreensão mais refinada que a ciência passou a ter do aquecimento global. [...] “A semântica muda de acordo com o estado do problema”, explicou Marcos Buckeridge, biólogo da Universidade de São Paulo (USP). [...]
Nem todos apoiaram a decisão do Guardian. “Os termos ‘mudança do clima’ e ‘aquecimento global’ já são suficientes para um público que não está apto ou disposto a reconhecer o fenômeno como uma ameaça”, argumentou num artigo o jornalista norte–americano Peter Dykstra, editor da Environmental Health News.
Outros articulistas aventaram igualmente a possibilidade de a decisão ser um tiro no pé: o caráter mais alarmista das novas expressões poderia estimular a indiferença ou a apatia do público, conforme já sugeriram alguns estudos acadêmicos. Afinal, se a tragédia é mesmo inevitável, não há muito que se possa fazer.
“De fato, a retórica apocalíptica não conecta os jovens à pauta climática”, avalia o cientista social Iago Hairon, da ONG Engajamundo, que busca mobilizar as novas gerações na luta contra o aquecimento global. Mas ele não crê que os termos recomendados pelo Guardian se enquadrem propriamente na categoria apocalíptica. Já o físico Paulo Artaxo, da USP, espera que a alteração no discurso traga consequências políticas. “Os governos tendem a agir mais rapidamente quando ameaçados pelo pânico.”
ESTEVES, Bernardo. Agora é a crise. Revista Piauí 154, ano 13, jul.2019. p. 7. [Fragmento].
Releia este trecho.
“O diário passou a recomendar a seus jornalistas e articulistas que não falem mais em ‘aquecimento global’ ou ‘mudança do clima’.”
Analise sintaticamente os enunciados a seguir e assinale a alternativa em que o pronome relativo destacado não exerce a mesma função sintática do “que” em negrito nesse trecho.