Leia o texto de Drauzio Varella para responder a questão.
No leito de morte os religiosos talvez levem vantagem: podem rezar, fazer promessas, pedir que o Jesus deles se apiede, que lhes conceda a glória da vida eterna, ou agarrar- -se a outro pensamento mágico que torne a realidade menos inclemente. Mas nem todos são bem-aventurados, conheci alguns que se revoltaram contra o Deus em quem depositaram tantas esperanças, por havê-los abandonado. Tratei de um pastor protestante que fumava dois maços de cigarro por dia, mas, quando teve um câncer de pulmão aos cinquenta anos, ficou tão indignado que só se referia a Deus como “o ingrato”.
De minha parte, nunca fui religioso, nem haveria de converter-me por arrependimento, covardia ou iluminação.
Não terá sido por falta de formação católica: quando dei conta de mim, já haviam me ensinado a rezar. Uma das poucas imagens que guardo de minha mãe em nossa casa no Brás é a de uma tia rezando com ela, para que Deus lhe devolvesse a saúde. Minha avó paterna não ia para a cama sem passar em meu quarto para me cobrir e recomendar que não esquecesse das preces pela mamãe e para Deus proteger nossa família, conselho que apesar da preguiça era seguido à risca, de medo que por minha culpa a alma materna fosse maltratada no céu.
(O médico doente, 2007.)
O autor do texto, quando era criança,