“É como se a névoa de pó e escombros que subiu naquela manhã de 11 de Setembro em Nova York encobrisse o país inteiro, e os segundos da queda das Torres Gêmeas ensurdecessem os Estados Unidos por dez anos. Custou uma década, mas os tabus e as dúvidas que tomaram governo e sociedade com os atentados em Manhattan, no Pentágono e na Pensilvânia começam a se dissipar. O país de 11/9/2011 é mais cético que o de 12/9/2001. Esse despertar é notado por gente da direita e da esquerda do espectro político, como Charles Kupchan, Robert Kagan e Joseph Nye; por ativistas desencantados e por uma população mais desconfiada do que ocorreu naquele dia e do que foi feito depois em nome dele. O mundo é outro, sem dúvida, e a importância dos atentados já seria inegável mesmo que só para expor ao planeta – e revelar a si mesma – as impotências daquela que reivindicou para si o termo superpotência. Mas o quanto dessas transformações nasceu ali, e o quanto delas foi apenas catalisado pela tragédia – essa conta, em dez anos, mudou. 'O 11 de Setembro transformou a política externa americana por uma década, e só agora a forma de os EUA lidarem com o mundo está voltando ao normal', diz Charles Kupchan, pesquisador do Council on Foreign Relations. A ascensão chinesa já estava lá, bem como o avanço da América Latina (seja a emergência do Brasil, ou a onda de governos de esquerda) e a perda de peso político da aliada Europa. Os EUA apenas demoraram a notá-los – vácuo hoje mais visto como acelerador, e não causador do processo. 'Nunca me convenci da tese da apolaridade global, e não acho que a estrutura do sistema internacional tenha mudado tanto assim', afirma Robert Kagan, estrategista e colunista conservador que esteve no Departamento de Estado de Ronald Reagan. 'Às vezes, as pessoas, ao olharem para trás, veem um passado imaginário no qual os EUA podiam fazer tudo que quisessem, mas isso nunca existiu', completa.”
Luciana Coelho. “Após década turbulenta, EUA questionam reação aos ataques”. Folha.com, 11/09/2011 (acesso em 27/09/2011).
A “transformação da política externa norte-americana”, mencionada no texto, incluiu a