Leia o trecho de Os sertões, de Euclides da Cunha, para responder à questão.
Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre1 , e a reagir, de pronto.
Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido2 e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da rede preguiçosa e cômoda para o lombilho3 duro, que o arrebata, como um raio, pelos arrastadores4 estreitos, em busca das malhadas5. Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia – passiva ante o jogo dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos estios abrasantes.
É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto…
(Os sertões, 2003.)
1 chofre: golpe ou choque repentino.
2 combalido: fisicamente abalado, enfraquecido.
3 lombilho: tipo de sela ou músculo lombar da rês (animal de montaria).
4 arrastadores: trilhas abertas no mato por vaqueiros.
5 malhadas: rebanho de gado.
Ao descrever o sertanejo como “perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra”, defendendo que “viver é adaptar-se”, o autor de Os sertões mostra adesão a um princípio filosófico popular no final do século XIX e início do XX, conhecido como