Texto para a questão
Esta sinistra morada era habitada por uma personagem talhada pelo molde mais
detestável; era um caboclo velho, de cara hedionda e imunda, e coberto de farrapos.
Entretanto, para a admiração do leitor, fique-se sabendo que este homem tinha por
ofício dar fortuna!
Naquele tempo acreditava-se muito nestas coisas, e uma sorte de respeito
supersticioso era tributado aos que exerciam semelhante profissão. Já se vê que
inesgotável mina não achavam nisso os industriosos!
E não era só a gente do povo que dava crédito às feitiçarias; conta-se que muitas
pessoas da alta sociedade de então iam às vezes comprar venturas e felicidades pelo
cômodo preço da prática de algumas imoralidades e superstições.
Pois ao nosso amigo Leonardo tinha-lhe também dado na cabeça tomar fortuna,
e tinha isso por causa das contrariedades que sofria em uns novos amores que lhe
faziam agora andar a cabeça à roda.
Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois da fuga da
Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que também
não foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era romântico, como se diz
hoje, e babão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha.
Como o ofício rendia, e ele andava sempre apatacado, não lhe fora difícil conquistar a
posse do adorado objeto; porém a fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua
alma aspirava, isso não o pudera conseguir: a cigana tinha pouco mais ou menos sido
feita no mesmo molde da saloia.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.
Considerada no contexto histórico-literário da época em que foram publicadas as Memórias de um sargento de milícias, a crítica à idealização romântica, presente nessa obra, indica que