Texto
BECOS DA MEMÓRIA
A barriga de Ditinha cresceu. Beto estava com
treze anos. Ela temia pelo futuro de Beto. E depois
vieram o Zé, o Nico. A mesma coisa, ela só faltou
tomar o diabo em pó para abortar, entretanto a
[5] barriga crescia. Na última gravidez, ela já sabendo
que remédios, chás de nada adiantavam, pois tinha
o organismo forte, de mulher parideira, Ditinha foi
mais longe. Maria Cosme não era escrupulosa
como Vó Rita. Maria Cosme enfiou uma sonda por
[10] dentro de Ditinha. A sonda ficou lá dentro quase
dez dias, até que numa manhã ela começou a
sangrar. Sangrou tanto que foi parar no hospital.
Os médicos queriam que ela dissesse o nome da
“fazedeira de anjinhos”. Ela não disse mesmo; pelo
[15] contrário, se preciso fosse, se pudesse, até
esconder Maria Cosme, ela esconderia. Tiveram
que retirar o útero e o ovário de Ditinha. Ela
respirou aliviada, pelo menos não criaria barriga
mais nunca.
[20] Quando Ditinha chegou ao seu barraco, Beto e Zé
não estavam em casa. Mandou que Nico fosse
atrás deles; o menor voltou chorando e sozinho.
Estava tão cansada, olhou o pai paralítico e viu
seus olhos vermelhos, congestionados de cachaça.
[25] O velho pediu mais, ela deu.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Rio e Janeiro: Pallas, 2017. p.102-103.
O período “Sangrou tanto que foi parar no hospital” (linha 12) expressa relação semântica de