Leia o trecho de O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa, para responder à questão.
O que Juca lamentava, em Capinzal, era a falta de companhia. Pobreza, pouco lhe importava. Em seussonhos de futuro e de felicidade, nunca entravam osimediatismos da vida presente.Jamais comprara um bilhete de loteria, menos por pessimismo que por desinteresse. Fazer o quê, com dinheiro? Só se fosse para adquirir aquele grupo de marfim, maravilha de arte chinesa que remontava ao quinto século e pelo qual lhe tinham pedido a ninharia de seiscentos mil-réis. Passara meses com aquele tesouro a povoar os seus sonhos. Ao receber os três meses de ordenado em atraso, saíra correndo, com medo que o tivessem vendido. Felizmente, a joia era dele. Trêmulo de emoção, levou-a para casa e trancou-se no escritório humilde para contemplar o tesouro.
Mas a esposa surpreendera-o a querer esconder o objeto do
crime.
– O que é isso, Juca?
– Nada...
– Nada? Então deixe ver... Quanto você pagou por essa
bugiganga?
– Por que é que você quer saber? Vocês nunca dão valor a
essas coisas...
– Vamos, Juca. Eu tenho direito de indagar. Sou sua mulher...
Cada vez mais intrigada, já prevendo qualquer disparate do marido, Maria Rosa fincou pé. Queria saber. Se ele tivesse dado mais de dez mil-réis, com aquela miséria que andava pela casa, chegara a vez de explodir. Ainda na véspera, o Juca lhe negara dinheiro para um remédio de que a filha tinha urgência.
Ele já começava a ter remorso. Não era só questão de ponto de vista. De fato, tinha sido uma loucura. Tinham dívidas pelos cabelos. Faltava tudo em casa. Comida, roupa, remédio. O aluguel, atrasado.
(Adaptado)
De acordo com o texto, pode-se afirmar que Juca